A população rural representa apenas 6% do contingente populacional brasileiro, mas é a mais pobre do País e carente de muitos bens e serviços. Apesar da auto-louvação oficial sobre o desenvolvimento da agricultura familiar, a pobreza está muito presente no meio rural. Na proporção dos números, supera as misérias urbanas, mas na soma global de patrícios de baixa condição de vida o volume é maior nas cidades. Quarenta milhões vivem como indigentes, no total nacional. Onde há pobreza há também subnutrição, porque o alimento é escasso na mesa de muita gente. No mais, falta moradia decente, luz elétrica, água corrente, sanitários dentro de casa e tudo o que vem nessa esteira.
Este é o retrato de uma vasta faixa da gente brasileira, não visto sob os holofotes da propaganda governamental. Alguns aspectos desses números foram mostrados em Londrina durante o 45º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural, que acaba de realizar-se. Enquanto os governos esbanjam fortunas em gastos supérfluos, encarecem a máquina pública cada vez mais, superfaturam obras e se refestelam na festança das mordomias e da corrupção, milhões de co-irmãos vivem em situação de carência. Destes, considerável parcela vive em miséria extrema, à beira da morte por inanição, que é a debilidade por escassez de nutrição.
É ainda na cidade onde o rendimento é maior, porque no campo é apenas a metade, tanto pelo menor salário quanto por outras rendas baixas, incluindo a da venda da produção. Os programas sociais do Governo Lula ajudaram um pouco a eliminar o problema - conforme opiniões manifestadas no Congresso de Londrina - mas são ainda um paliativo, porque o ideal é adotar políticas públicas de crescimento econômico, de forma a gerar empregos e permitir a auto-suficiência permanente, sem paternalismo. Essas ajudas, embora necessárias na emergência, são soluções de baixa eficiência, porque os pobres continuarão pobres e dependentes. No Nordeste a pobreza é ainda maior, conforme a estatística. De um lado, por causa da seca quase constante no sertão e, de outro, porque os governantes e as representações políticas se valem desse estado de miséria para, pelo socorro mínimo, manter atrelados os eleitores.
No caso da fome, é um contra-senso que haja mesas sem alimento, porque o Brasil produz dez vezes mais do que a demanda do consumo interno. Tal ocorre pela má distribuição, em razão do baixo ganho de tantos brasileiros. Grandes porções se perdem nas colheitas e nos manejos da produção, outras são exportadas e muita comida é desperdiçada à mesa dos abastados e até da classe média, por desrespeito ao precioso bem que é o alimento. Por trás de todas essas coisas reside o descaso dos governos, a falta de humanismo e a indiferença de grande parte da sociedade, tudo isto traduzindo-se em ausência de conscientização e de solidariedade.

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