Espírito de patriarca, ordeiro, limpo de alma e nobre de atitudes, responsável, íntegro e cônscio, metódico como poucos, organizado ao extremo, é o mínimo que se pode dizer, se se quiser iniciar qualquer referência à ilustre pessoa do reverendo Antoninho, há pouco falecido.
Ele nasceu em 31 de outubro de 1937, em Lençóis Paulista (SP), filho do reverendo João de Godoy e de Dona Vasti Lopes de Godoy, nossos caros e finados pais. Deles herdou a vocação que o marcou em toda a vida e que era o selo que sempre o distinguiu: amor às cousas da Igreja, ao Ministério Eclesiástico e aos estudos, da Teologia às ciências menores. Nada, na cultura e nas artes, passou-lhe despercebido, como na política, de que era arguto e perspicaz analista.
Tendo nascido no dia em que se comemora a Reforma Protestante do Século XVI, ele, guardou, na coincidência da data, carinho pessoal para com Martinho Lutero e, em suas conversas prodigiosas, afirmava que a Reforma fora possível pela iluminação do cérebro de Calvino e pela força arrebatadora do gênio lírico e impulsivo daquele, de quem, por versão, fez algumas adaptações na letra de cânticos hoje entoados nos arraiais de nossas igrejas.
Homem de fé, líder, Antonio começou a vida trabalhando em banco aos 15 anos, depois em secretaria de colégio. Terminou o secundário em 1955, e em 1956 seguiu para São Paulo, formando-se em 60, tendo sido o orador da turma. Pronunciou, na ocasião, esclarecido discurso intitulado ‘‘Fé e Razão na Idade Média’’, tema ao qual voltou a escrever, inspirado em recente encíclica papal.
Antonio pós-graduou-se em Princeton, nos Estados Unidos, fez complementação em Filosofia, habilitou-se ao magistério e teve ocupações seculares, onde agiu com reconhecido equilíbrio e angariou notoriedade, e com o espírito de, assim, ter maior liberdade pessoal e econômica para se dedicar aos trabalhos da Igreja, iniciou seu pastorado em Arapongas.
Ele participou da fundação do Cesulon (Centro de Estudos Superiores de Londrina) em 1974 e, em 1982, obedecendo a um antigo desejo de viver em ambiente de seminário, instalou o Seminário Teológico de Londrina, que vem formando geração de pastores, ao longo dessas quase duas décadas.
Antonio exerceu influência notável na vida da Igreja, onde era considerado o ‘‘seu teólogo’’ e, na vivência, na experiência e no cultivo da Teologia, teve o nome alçado a posições de destaque, no Brasil e no exterior.
De vários alunos do Seminário, alguns hoje em atividade pastoral, ouvi relatos sobre seu trabalho, sobre sua postura e sobre suas aulas, que não eram simplesmente aulas: eram pregação serena, apostolado, cruzada em prol de seus temas e das teses que sempre defendeu, em linguagem escorreita e de profunda e reconhecida piedade.
Ele não deixou obra sistemática escrita. Seus escritos - como falaram do púlpito da Igreja em seu enterro - estão espalhados nos corações daqueles que com ele privaram, e sua obra está fincada na memória de todos nós. A partir do dia em que caiu vitimado na CTI do hospital, passou a escrever, imóvel e inconsciente, aquilo que não conseguiu fazer na atividade e, de sua fisionomia e de seu semblante proféticos, irradiavam mensagens as mais profundas; e todos falamos que, às portas da morte, ele pregou mais que toda sua vida.
Sua morte abre uma fenda ímpar na vida da Igreja, difícil de ser preenchida, e sua trajetória foi de testemunho e, como estrela de primeira grandeza, paira nos superiores desígnios, emitindo luzes e espargindo bondade, responsabilidade e fervor.
- MOISÉS DE GODOY é advogado em Londrina

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