Impunidade e despreparo
Que outra denominação se pode dar a homens que praticam recorrentemente e tranquilamente o mesmo crime e no mesmo lugar? Abusados são o motorista de uma van de transporte alternativo do Rio de Janeiro e seus comparsas que usavam o veículo para roubar, espancar e estuprar passageiros. Assim como os personagens do livro Abusado, de Caco Barcelos, que mostrou o crime organizado na capital carioca, a gangue da van apostava na impunidade para continuar praticando delitos.
O último crime praticado pelos bandidos ganhou repercussão nacional e internacional porque a vítima foi um casal de jovens estudantes estrangeiros que visitava o Rio. Durante seis horas, enquanto os criminosos usavam os cartões de crédito dos turistas para comprar bebidas e sacar dinheiro, o rapaz era espancado e a moça era estuprada. Três homens se revezavam na direção e na prática das agressões. Depois que o casal foi solto e procurou a delegacia, a polícia agiu rapidamente e prendeu dois dos suspeitos, sendo um deles, o motorista da van. O terceiro homem foi detido dias depois.
Com a divulgação da imagem dos estupradores, duas mulheres procuraram a polícia para denunciar que também tinham sido vítimas do mesmo grupo. Uma delas contou que o abuso aconteceu sete dias antes, no mesmo veículo e que ao registrar o crime na Delegacia da Mulher de Niterói, foi mal atendida e esperou horas para atendimento no Instituto Médico Legal (IML). As autoridades consideraram (com razão) falha grave da delegada e de uma perita o pouco caso com que essa vítima foi tratada. As duas servidoras públicas acabaram exoneradas e a direção da Polícia Civil teve que pedir desculpas à sociedade.
São vários os aspectos que merecem atenção nesse triste episódio. Um deles é o clima de medo e ameaças que os bandidos provavelmente impunham aos usuários do serviço de transporte. Sabe-se que os três estupradores fizeram todos os passageiros descerem do carro, exceto o casal, antes de começar a sessão de agressões. Se não fosse medo, como explicar o fato de ninguém ter procurado a polícia para relatar o caso assim que foram expulsos do veículo? Outro aspecto é a falta de preparo das autoridades no recebimento de denúncias de agressão contra mulheres, apesar do muito que se fala no assunto.
Por fim, uma triste comparação. Assim como em muitos outros países, o Brasil acompanhou estarrecido a história de uma indiana que morreu após ser estuprada por seis homens em um ônibus de Nova Deli. Agora, para os brasileiros, é difícil aceitar que aquele tipo de crime também ocorria em uma grande e moderna cidade como o Rio de Janeiro.





