Imprensa é que deve pedir trégua aos políticos
A desfaçatez é tão grande que o presidente da Câmara Federal, Michel Temer, inicia peregrinação aos comandantes de empresas jornalísticas pedindo que poupem os parlamentares e depositem neles um voto de confiança. É um pedido de trégua, que só não pode ser assemelhado a uma imposição de censura porque não se vive uma ditadura mas um regime de liberdade de expressão. Ele deve supor estar numa cruzada saneadora só porque está disciplinando o uso de passagens aéreas pelos membros da Casa e os respectivos familiares.
Só os desavisados poderiam crer que, mesmo que tal moralização se implante de fato, isto seja suficiente. Mesmo como uma eventual concessão de trégua, a imprensa teria de continuar se ocupando da proposta paralela do momento - para compensar perdas previstas - de elevar o salário dos parlamentares para R$ 24.500. Não será preciso pedir um cessar-fogo da imprensa se os políticos e os homens públicos em geral mudarem seu comportamento e promoverem uma revolução moralizadora, porque se isso ocorrer a trégua ocorrerá espontaneamente.
A solicitação de Temer soa como uma conclamação para que os veículos de comunicação deixem a farra pública correr solta e que seus protagonistas não sejam molestados. Este seria um período de mudez para a opinião pública não saber de nada. Mas se nos tempos de regime de exceção a imprensa burlava o mais que podia a ordem dos censores dentro das redações e as que vinham dos comandos militares por via do Ministério da Justiça, imagine-se agora atender a um pedido destes! E justamente num período em que a imagem dos parlamentares (e de tantos outros detentores do poder) desceu a nível baixíssimo. Um pedido de trégua caberia se a imprensa fosse uma cruel perseguidora dos parlamentares e governantes, e eles santos homens. É pouca coisa feita (a dita moralização no caso das passagens) para o pedido de os veículos de comunicação amaciarem seu noticiário, poupando os políticos.
O fim das críticas e a reversão para elogios aconteceriam se o Congresso diminuísse pela metade o número de seus membros e seu quadro de assessores, cortasse na mesma proporção os abusos de gastos extras, que os parlamentares fossem mais assíduos no comparecimento às sessões e começassem a discutir reformas consistentes. Por ora (com licença do direito autoral do presidente Lula), o que eles estão fazendo em termos de moralidade é só marolinha. A imprensa, representando as vozes do povo, é que deveria pedir que os políticos dessem uma trégua em seus desmandos.
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