Imprensa e poder - Jorge Eduardo Mosquera
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 1999
Jorge Eduardo Mosquera 
Benjamin Franklin costumava dizer preferir um país sem governo a um país sem jornais. A imprensa livre, ensinou ele, um dos mentores da constituição norte-americana, é a um só tempo essência e produto da democracia. Há não muito tempo, a pretexto de salvaguardar a normalidade, governos militares, ilegitimamente constituídos, instalavam censores nas redações de jornais, rádios e emissoras de TV. Extensas reportagens ou simples observações nas entrelinhas de um editorial podiam agredir o regime, ferir egos, tumultuar o que se chamaria depois de distensão lenta e gradual.
Amordaçada, a imprensa reagia como podia ao silêncio imposto. Esta Folha, então um modesto jornal do interior do Paraná, sujeita, portanto, a vigilância menos severa, dava seus dribles na censura. Nos grandes centros, fora os aliados à ditadura, os jornais alertavam a população que estávamos longe de viver na normalidade. Quando não podiam falar de crise política, publicavam receitas de bolo. Quando uma epidemia de meningite era assunto proibido, estampavam na primeira página poemas de Camões. Quando presos políticos eram torturados e vagiam nas masmorras da ditadura, e publicar isso era crime, mostravam a outra face do regime em manchetes como Agora é samba.
A normalidade democrática e a liberdade de imprensa, duramente conquistadas, trazem à tona verdades que podem desnudar homens e situações que, em outros tempos, estariam amparados ao silêncio e à penumbra. É o caso do mais recente escândalo envolvendo a corte de Brasília. Agora, as luzes são lançadas sobre a pomposa figura do presidente Fernando Henrique Cardoso - legitimamente eleito, ressalte-se, em duas oportunidades. Fernando Henrique teria influído diretamente no leilão de privatização do sistema Telebrás, ao permitir que seu nome fosse usado como arma de pressão sobre o Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. É o que consta de gravações de conversas telefônicas divulgadas ontem pelo jornal Folha de S. Paulo. FHC, na linguagem cifrada de conversas grampeadas, é a Bomba Atômica.
Para quem acompanha o tema, desde a época do início dos leilões, existem, a rigor, poucas novidades no caso. Além da Folha de S. Paulo, a revista Carta Capital é outra publicação de ponta que tem dedicado suas páginas a questionar a legitimidade do processo e apontar os envolvidos pelo bem ou pelo mal. Por conta disso, foram lançados ao mar o ministro das Comunicações, Luis Carlos Mendonça de Barros, seu irmão Roberto, então secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, do Ministério da Fazenda, e o poderoso presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, André Lara Resende.
Agora não se trata mais de ministros ou assessores de segundo escalão. No olho do furacão está o presidente da República. A involuntária entrada em cena de personagem de tamanha dimensão fez com que, no Congresso, nas assembléias e em determinados setores da sociedade organizada saltasse a esperada indagação: A quem serve a denúncia? A serviço de quem, de quais interesses estão certos setores da imprensa?
A imprensa, esta entidade que já foi chamada de Quarto Poder - e Roberto Marinho, das Organizações Globo, é seu grande ícone - é na verdade um serviço público inestimável. Não é polícia para prender, mas investiga. Não é CPI para derrubar, mas denuncia. É este o seu papel, e é por isso que se lêem jornais, ouvem rádio ou assistem à TV. A crise nas bolsas daqui e de fora, por conta das denúncias que respingam no presidente; o esgarçamento da incolumilidade do Poder Judiciário, abalado por uma CPI; o envolvimento de gente do Banco Central em denúncias agora em apuração em uma segunda CPI são fatos Investigados e noticiados, nunca criados pela imprensa.
A imprensa, salvo exceções, tem a servir, sim, à patuléia que elege seus governantes e deve ter deles satisfações de seus atos - quando não, notícias de seus fados. A choldra, que de alguns ornados salões de qualquer poder, pode ser enxergada como massa de manobra, acompanha, e vai cobrar, atos falhos ou maracutaias praticadas por quem elegeu.
Ensina-se em jornalismo, talvez toscamente, que um cachorro morder um homem não é notícia, mas há notícia quando um homem morde um cachorro. Em países onde imperam a transparência e a lisura no trato da coisa pública, poucas vezes os governantes aparecem com destaque nas capas dos jornais e revistas. Quando há desvios, isto é, ocorrem anormalidades, a imprensa é alertada e tem a obrigação de transmitir informações corretas, equilibradas e irretocáveis a seus leitores. É este o papel da imprensa livre e honesta. É esta sua obrigação. Aceso o sinal vermelho em Brasília, seja culpado ou inocente o presidente Fernando Henrique Cardoso, há evidências de sujeira debaixo do tapete. Ou melhor, de que um homem, vários homens morderam um cachorro.
- JORGE EDUARDO MOSQUERA é chefe de reportagem da Folha em Londrina


