Imprensa ameaçada - Cresce violência contra jornalistas
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sábado, 20 de fevereiro de 2016
Adriana De Cunto<br> Reportagem Local 
Cento e nove jornalistas foram assassinados, ano passado, em 30 países. No Brasil, a violência contra o profissional da imprensa matou duas pessoas e fez outras 135 vítimas. Entre os casos registrados estão agressão física, cerceamento da liberdade de imprensa por meio de ações judiciais, censura, atentados e outros. Os dados fazem parte do relatório Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil/2015, elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). É importante ressaltar que no Brasil, além dos dois jornalistas, nove profissionais de comunicação foram assassinados em 2015: cinco radialistas, dois blogueiros e dois comunicadores populares. Segundo o estudo, todos esses homicídios tinham como característica a morte por encomenda. Entre os Estados brasileiros, São Paulo registrou o maior número de ocorrências (24). No Paraná foram nove queixas de violência.
O presidente da Fenaj, Celso Augusto Schröder, lembra que o México é o país mais preocupante do mundo quando o assunto é violência contra profissionais da imprensa. Mas a situação do Brasil não é nada confortável. Ele lembra que um relatório da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), aponta que o Brasil é o décimo país mais violento para jornalistas, tomando como base os números dos últimos 15 anos. Schröder explicou que a Fenaj está trabalhando em três sentidos para tentar diminuir esse índice. O primeiro é a criação do Observatório Contra a Violência de Comunicadores no Brasil, que tem como um dos objetivos acompanhar as investigações dos atos de violência. O segundo é buscar a aprovação no, Congresso Nacional, de um projeto de lei que federaliza as investigações desses crimes e a terceira é a criação de uma cultura de segurança nas redações, com protocolos nacionais para uso de equipamentos de proteção e treinamentos.
Schröder é formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e especialista em Sociologia. É, pela segunda vez, presidente da Fenaj e também é presidente da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe (Fepalc) e vice-presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ). Em entrevista, pelo telefone, com a reportagem da Folha de Londrina, ele disse que é preciso buscar a proteção e o apoio da sociedade: "Agredir alguém para que um serviço de natureza pública e de interesse público não venha a ser conhecido é atingir a sociedade como um todo".
Por que o jornalista é um profissional constantemente ameaçado, agredido e intimidado, não só no Brasil, mas no mundo todo?
Porque atuamos em um espaço da sociedade incômodo, que é tornar público aquilo que é de interesso público e que alguns setores querem que continue privado. Que não vá a público. Então essa função nossa, que é uma função única, somos os únicos que fazemos isso, nos torna incômodos para setores que precisam manter privadas informações que necessariamente devem ser públicas. Isso nos transforma nesses alvos. A violência contra jornalistas tem crescido nesses últimos anos em todo mundo.
Sobre os autores desses atos de violência. No Brasil, segundo o relatório, primeiro vem a Policia Militar e depois os políticos/ assessores/ parentes. Isso é uma característica também em outros países?
De uma maneira geral, no mundo, os jornalistas são alvos de agentes de Estado. Ou seja, exércitos ou policiais militares. E, de uma maneira geral, na maior parte do mundo, são situações de guerra. Ou Estados contra Estados ou Estados contra grupos que estão reagindo. Na Rússia, no México, no Brasil, aparecem outros elementos. No México e na Rússia, Colômbia também, aparece o crime organizado. Que não é o caso do Brasil. (No Brasil) O grande problema são os crimes por encomenda. Os agentes da violência no Brasil também são de Estado. Aparecem as Polícias Militares, particularmente, a Polícia Militar de São Paulo, que tem um grande número de casos. Mas, essa é a grande novidade no Brasil, aparecem políticos, assessores e parentes. Então a novidade é que, enquanto no mundo os mais atingidos são repórteres correspondentes de guerra, ou repórteres fotográficos correspondentes de guerra, ou repórteres cinematográficos correspondentes de guerra, no Brasil são jornalistas - e aí entram também repórteres fotográficos - que cobrem política. Isso nos leva a pensar que no Brasil a política ainda está envolta em tipos de negócios em que o jornalismo é particularmente incômodo.
A sociedade brasileira tem consciência dessa situação que os profissionais de imprensa atravessam?
Não. Infelizmente. Embora o esforço que a gente faz, que outras organizações façam, essa violência não transita. A não ser eventualmente, quando chegam a casos de violência extrema, ou de onde trabalha o jornalista se ganha uma dimensão nacional. Infelizmente não, até porque se tivesse essa consciência, compreenderia e protegeria mais os jornalistas com o seu manto, digamos, de opinião pública. Os jornalistas estão sendo mortos, estão sendo agredidos porque de alguma maneira isso está sendo validado em setores da sociedade ou porque a sociedade não está debruçada sobre o fato. O movimento que a Fenaj tem feito é, por exemplo, construir o Observatório Contra a Violência de Comunicadores no Brasil. Nesse observatório, precisamos ter presentes as empresas, elas precisam se comprometer com a segurança dos jornalistas, dos trabalhadores que estão sendo vítimas dessa violência, e a sociedade civil por meio de algum tipo de representação. A sociedade precisa entender que a morte, agressão, violência contra jornalistas não é particularmente contra um ou outro profissional antipático, a esse ou aquele grupo. Em quase cem por cento dos casos é para que não saia a notícia. Portanto, agredir alguém para que um serviço de natureza pública e de interesse público não venha a ser conhecido é atingir a sociedade como um todo. É um movimento contra a opinião pública.
A sociedade não tem consciência de que ela está sendo prejudicada?
A não ser alguns setores. Por isso é preciso construir no País um debate com essa natureza. Eu estive no México e aquele país é uma situação limite e extrema. Participei de uma missão nesse sentido. Muito mais do que cobrar do presidente, muito mais do que cobrar do Congresso, porque eles sabem disso tudo, era tentar motivar a sociedade mais do que ela está motivada, ou seja, mais do que ela está informada. Há uma tendência da sociedade a atribuir ao jornalismo uma atividade antipática. A sociedade compartilha em alguns momentos dessa visão crítica. Nós também cometemos erro, também temos problemas na profissão. Agora, a sociedade precisa compreender que a natureza do nosso trabalho é essencialmente pública. E por isso precisamos ter essa cumplicidade, esse aporte, esse apoio da sociedade, que infelizmente nem sempre acontece e quanto menos acontece, mais vulnerável fica o jornalista.
Antes, os profissionais de jornais eram as principais vítimas no Brasil. Em 2015, isso mudou para os profissionais de TV. Por quê?
A partir de 2013, 2014, a violência se desloca, inclusive de assassinato. É bom lembrar o assassinato do Santiago (cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, morto durante protesto) no Rio de Janeiro. A violência se desloca desses crimes de encomenda, que eram muito comuns, infelizmente, nos grotões do Brasil, onde a política impunha a suas lógicas, onde os jornalistas que incomodavam eram agredidos ou mortos. Isso se deslocou para a cobertura da explosão de movimentos, da manifestação no Brasil. A partir dali a natureza da violência é outra, que inclusive aparece de outros agentes. Por exemplo, o movimento social. Ou seja, o jornalismo que sempre foi absolutamente alinhado, aliado, digamos da sociedade brasileira, enfrentou a ditadura - nós temos uma quantidade enorme de mártires, de jornalistas que foram mortos, torturados em nome da liberdade de expressão no período da ditadura. A democracia do Brasil inicia com a morte do Herzog (jornalista Wladimir Herzog, morto pelo Regime Militar em 1975). A partir de 2013 tem uma novidade, que são os setores dos movimentos sociais. Eu, particularmente, tenho insistido nisso, não os considero como meus parceiros. Do meu ponto de vista, defendem outros interesses. Começaram a agredir jornalistas, confundindo trabalhadores com as suas empresas. E mesmo empresas sendo agredidas fisicamente, carros sendo incendiados, etc. Para nós isso é um sintoma muito perigoso, aponta para tipos de estruturas sociais nas quais o jornalismo está como um adversário e não um aliado.
Os agressores estão sendo punidos?
Muito poucos. No mundo todo, o elemento de manutenção dos números elevados de violência e crescimento em alguns países - e o Brasil é um deles - é a impunidade. No México, temos lá cento e tantos casos nos últimos oito anos e nenhum resolvido. Essa não solução dos casos é o grande problema. Ou então soluções mal feitas. Muito comum em agressores a jornalistas, quando não têm provas, a tendência nos processos judiciais sempre é transformar a vítima em algoz. Nós mesmos reproduzimos um pouco essa tendência. Desconfiar primeiro se a morte foi em situação de trabalho ou não. O problema é que, quando se parte do princípio de que a vítima é algoz, normalmente os processo policiais são mal feitos, e redundam em processos judiciais mal feitos. Não punem ninguém.


