Imposto do ACM: um debate inútil - Arlete Salvador
Imposto do ACM:
um debate
inútil
Arlete Salvador
Se havia ainda alguma dúvida de que a corrida para a sucessão presidencial de 2002 já começou, ela acabou nos últimos dias. Ou alguém costuma se lembrar dos pobres fora do período de campanha eleitoral? Bem, eles são o centro de uma disputa para saber quem se dedica mais a cuidar de seus interesses e quem é o criador da melhor idéia para protegê-los e promovê-los na pirâmide social. Só pode ser campanha eleitoral, porque uma discussão dessas não é séria. Está mais para aquele tipo de nhenhenhém que ocupará as primeiras páginas dos jornais por algum tempo e será sepultado pelo crime escabroso do momento seguinte. Ou pela ação heróica de anônimos num lugar perdido no mapa. Portanto, não é o caso de se discutir qual dos projetos em disputa é o mais viável. Uma discussão dessas só legitima a disputa como se ela fosse séria e existisse de fato.
Melhor fazer como fazem os pobres. Ignorar solenemente esse babado todo. Economizar energias para cuidar de coisas mais importantes na vida, como as contas para pagar no fim do mês, a educação dos filhos e a dúvida sobre com quem vai ficar o Waldomiro quando acabar a tortura de Suave Veneno, a novela das oito da Rede Globo. Será Lavínia ou Carlota? Também vale a pena gastar algum tempo com discussões sobre a Seleção Brasileira de Futebol e ainda saborear a conquista da Copa América. Um pouco de alegria não faz mal a ninguém.
A lista de temas que poderiam substituir a briga pela paternidade da liberdade dos pobres é enorme. A saga da família Kennedy é uma boa pedida. Está tão distante da vida cotidiana do brasileiro quanto a corrida presidencial e eliminação da miséria. John John, pelo menos, existia, era de carne e osso e sua história é muito mais charmosa. Tem um pouco de tudo. Intriga, mulheres bonitas, milionários, tragédias e morte. A vida real, como se vê, costuma ser mais rica do que a ficção.
Até a conquista da Lua, celebrada esta semana, tem elementos de realidade. Afinal, os americanos de fato chegaram lá. Os astronautas andaram no solo lunar e disseram aquelas bobagens todas sobre a emoção do momento. Ainda tem gente duvidando, mas tudo indica que é verdade. A idéia de acabar com a miséria por decreto, ao contrário, está muito mais distante do que a Lua. Melhor deixar para o ano 3000.
Aliás, a virada do século é outro tema palpitante. Muitos hotéis, mesmo cobrando diárias de aterrorizar até sultão de Brunei, estão lotados. Quem não se apressar corre o risco de ficar em casa e ver a festa pela televisão. A alternativa é tão boa quanto assistir na telinha a alguns políticos defendendo os pobres. Quem está em casa não participa nem de uma coisa nem de outra. Mas paga a conta da energia elétrica.
Assuntos não faltam. Falta é coragem para ignorar uma discussão inútil, passageira e eleitoreira. Deveríamos ir treinando desde já, porque a eleição presidencial ainda está longe e até lá muitos temas como esse surgirão e desaparecerão como por encanto. Não vale a pena perder tempo com eles.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





