Importantes coisas inúteis - Lucinea Aparecida de Rezende Marques
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de julho de 1998
Lucinea Aparecida de Rezende Marques 
Decididamente estou sendo levada a pensar sobre o inútil. Dia desses, recortei o artigo de Carlos Alberto Rodrigues Alves, publicado na Folha em 24 de fevereiro último, intitulado O valor das coisas inúteis. Minha tarefa deveu-se à preocupação de refletir, com meus alunos, sobre a ansiedade que nos causa a necessidade de produzir, de ser útil, e a possibilidade de prazer frente ao inútil.
Acontece que na premência de ocupar-se do útil, o artigo foi ficando inútil, em minha pasta. Não sobrava tempo para ele. No entanto, hoje, ele foi útil, enquanto eu aguardava a hora de lavar meu carro. Revirando minha pasta, lá estava ele, à espera de atenção. Não resisti e fiz uma releitura.
Propus-me a ocupar-me do tema (tornando-o útil?). Já em casa, à hora do almoço, fui ler os jornais do dia. De novo, na Folha do dia 28 último, o tema volta à baila e deparo com o artigo de José Fernando da Silva: O saco da inutilidade. Aí também já é demais, não? Coincidência útil? Convite à reflexão? Propensão a ver o lado inútil da vida? Sei lá. O certo é que o inútil está a atrair - e não resisto à tentação de fazer disso uma coisa útil. Uma séria reflexão...
Dando-me conta, porém, que estou desvirtuando a proposta dos autores, conforme assimilei-as da primeira vez, passo a combater a idéia de pensar a inutilidade pelo lado inútil. Quero pensá-la genuinamente: inutilmente.
Exercício difícil, para quem não está acostumada. No entanto, tentemos. Comecemos pela definição de inútil (o Aurélio é útil, nestas horas): não útil, sem préstimo: pessoa, coisa inútil. Desnecessário, escusado. Como gastar tempo com isso? A definição não ajuda muito a avançar... vamos aos exemplos... Que coisas à nossa volta são inúteis? Futebol, por exemplo.
Qual a inutilidade do futebol? Ele é não útil, por si só. Mas socialmente nós o tornamos útil. Ainda que nem todas as partidas de futebol possam ser representadas como Beethoven, descrito por Alves, que diante da indagação do significado e objetivo de sua obra, após a apresentação de uma sonata, voltou ao piano e, divinamente, tocou-a novamente. Talvez isso nos permita uma nova definição: se a repetição de algo - inútil - puder encantar, estamos diante do inútil valoroso. Seria, portanto, útil? Se não encanta, é inútil mesmo.
Em que isso pode ser útil aos meus alunos? Inútil perguntar-me... Mais útil perguntar a eles. Se não por eles, ao menos por mim, para não ficar escrevendo (pensando) coisas econômicas, sem exageros e sem palavras inúteis (Silva). Que a inutilidade nos acompanhe e nos ajude a ser feliz!
- LUCINEA APARECIDA DE REZENDE MARQUES é mestre em educação em Londrina


