Implicações da possível elevação da Selic
A comunidade monetarista do Governo Lula é contraditória quando elege a demanda interna como impulsionadora do crescimento mas anuncia a possibilidade de aumentar a taxa básica do juro (a Selic) para conter o consumo. Isto sob a sua ótica de segurar a inflação. Ocorre que não há certeza de um aumento inflacionário na atual realidade brasileira, e queda de compras é sinônimo de recessão. Uma coisa é condenar o consumismo compulsivo, descontrolado e inadimplente, e outra é frear o consumo regular, dentro do orçamento de cada indivíduo ou família. Porque contê-lo é diminuir o fluxo da produção, com todos os males daí decorrentes.
E para desestimular as importações, sob o argumento de favorecer a opção por produtos internos - o que paradoxalmente esbarra na intenção governamental de brecar o consumo - o Governo está adotando medidas para desvalorizar o real. Mas com dólar baixo tem sido possível importar equipamentos e tecnologias não encontráveis no Brasil e melhorar o desempenho das indústrias e serviços, barateando custos e gerando mais qualidade. Analistas avaliam que o real valorizado, como hoje se encontra, contribui para segurar os preços ao consumidor que por isso compra mais e assim a roda do crescimento gira, porque aciona também as fontes produtoras. O consumo está mais veloz que a capacidade de produção, mas será ele que provocará uma puxada para o equilíbrio por estimular a cadeia produtiva? É o consumismo que aciona as fábricas e não uma produção excessiva que irá fazer o povo consumir. As duas coisas devem caminhar paralelas e em harmonia.
E é o aumento do poder aquisitivo gerado pelo crescimento econômico que induz as indústrias e serviços a aumentarem seu ritmo e a produzirem coisas melhores. A demanda tem sido maior que a oferta mas o setor industrial está atento a isso e tem buscado corresponder. A produção lenta de tempos não muito distantes deveu-se ao consumo igualmente baixo. Existe o temor de que uma política de juro básico alto, sob o pretexto de diminuir o consumo, pode desacelerar o crescimento econômico. Ao que parece, o Governo não sabe conviver com economia aquecida mas apenas em estado de dificuldade e pobreza.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve, que é o Banco Central de lá, reduziu o juro em 1,25 ponto porcentual a partir de janeiro, devendo baixar mais 0,75. Já no Brasil a perspectiva é que a Selic suba, em abril, de 1 a 2 pontos porcentuais. O professor André Sacconato, da Fundação Getúlio Vargas, declara que se a Selic for aumentada e a alíquota do IOF subir, o erro será potencializado. E o presidente do Instituto Nacional de Pesquisa Aplicada, Mário Pochmann, diz que se isto ocorrer haverá queda de empregos. Um tema para reflexão dos membros do Comitê de Política Monetária.





