IMPÉRIO EM CRISE - 'Mundo assistirá à queda dos EUA'
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center completaram sete anos, o cenário mundial assiste e dá vez à ascensão de potências como a China e a Índia, e as eleições norte-americanas estão próximas. Paralelamente a esse processo, o fantasma do apocalipse atômico voltou a assombrar, como nos tempos da Guerra Fria, com o conflito da Rússia com a Geórgia e o azedume nas relações de Moscou com a Casa Branca.
Na ciranda de interesses, mais um ingrediente: a crise econômica nos Estados Unidos. De acordo com o professor de história do Colégio Paulista Ricardo Barros, os exemplos mostram que a realidade iminente aponta a queda da hegemonia dos EUA e um mundo multipolar. Em entrevista à FOLHA, Barros explica esse novo processo, que considera ''natural e esperado''. Quem viver verá.
Sete anos após o 11 de setembro, como o senhor vê o cenário norte-americano?
Desde os atentados às Torres Gêmeas, o que vimos e vemos é um conservadorismo dominando o cenário. Os conflitos contra o Afeganistão e posteriormente contra o Iraque são fruto dessa dita política ''contra o terror''.
Às vésperas das eleições norte-americanas, marcadas para o dia 4 de novembro, podemos apostar na manutenção desse conservadorismo ou há perspectiva de uma mudança significativa?
Quando falamos nos EUA, na verdade falamos em duas Américas: uma América mais progressista, ligada a Barack Obama, e uma América mais profunda, que ainda mantém as características dos antigos colonizadores, com uma visão arcaica e mais conservadora, ligada a John McCain. Acredito que vai haver um embate muito grande entre os dois candidatos. Até as pesquisas não apontam a vitória de um ou de outro. Na verdade é difícil prever, como nas eleições que reelegeram Bush. O 11 de setembro é utilizado ainda como um troféu pelos republicanos, de forma a preconizar a política do medo.
E essa política do medo é efetiva?
Sim. Muita coisa mudou de 2001 para cá. O Ocidente se fechou, mas a iminência de um ataque terrorista é permanente. Então, não podemos esquecer que a Al-Quaeda é uma organização extremamente, com o perdão do pleonasmo, organizada.
Como avalia a posição da América do Sul em relação à questão?
O Brasil tomou medidas de segurança, bem como seus vizinhos, e estamos bastante isolados das questões envolvendo o terrorismo. Contudo, não podemos esquecer que temos vizinhos como a Colômbia com as FARC, a Bolívia com o governo Evo Moralez. Temos problemas também, mas creio que mais localizados e distantes daquilo que vemos, por exemplo, nos EUA.
Por falar em Bolívia, temos por lá os conflitos envolvendo a Nova Constituição. Na Europa, a questão da Geórgia. Qual seria o próximo barril de pólvora a explodir?
Sem dúvidas a questão da antiga União Soviética, os países da Comunidade dos Estados Independentes, que é muito complicada. A questão da Geórgia com a Rússia pode envolver os EUA e se tornar futuramente importante. Um dado que não temos lá e que aconteceu no 11 de setembro é a questão do fundamentalismo religioso, que foi, sem dúvida alguma, um pretexto muito grande para que a Al-Quaeda atacasse os Estados Unidos.
Voltando aos EUA, recentemente a Casa Branca afirmou que não tem ''superpoderes'' para capturar Osama Bin Laden. Mas desde 2001 não ouvimos que essa é a prioridade número um dos EUA?
Esse é um problema para o governo Bush e para os Estados Unidos. Sequer se sabe se Osama Bin Laden está vivo. Acredita-se que sim, em alguma região do Afeganistão ou Paquistão. Entretanto, os esforços dos norte-americanos para a captura de Bin Laden não foram bem-sucedidos. Acredito que, independente da prisão de Bin Laden - algo bastante simbólico, se acontecer -, os esforços dos EUA e de seus aliados acabarão resultando no desmantelamento dessa organização terrorista. Aposto que isso vai acontecer em breve.
Os EUA continuarão soberanos?
Desenha-se um cenário de queda de Império. Se observarmos os índices econômicos dos EUA dentro de sua política externa, notamos um cenário de crise iminente. Os EUA vão continuar desempenhando um papel muito importante, mas partimos rumo a um mundo multipolar, com o cenário regido também pela China, Índia, entre outros países em busca de um coeficiente comum. Da mesma forma que vimos a ascensão dos EUA na década de 1980, agora veremos esse processo de decadência, com o país dividindo os holofotes. O processo é natural e está acontecendo.


