Se é necessário o lançamento de uma campanha para combater a corrupção, como agora anuncia como grande medida, o Governo tem de preocupar-se fundamentalmente com a questão da economia, que encerra em si mesma a solução de todos os problemas sociais. Com a atividade econômica aquecida, o próprio Governo passará a diminuir o peso dos seus atendimentos assistenciais, porque os problemas se atenuarão no próprio meio. Uma ameaça grave, que pode nem se concretizar mas constitui preocupante indicativo, é a que fazem os produtores rurais de plantar 50% menos se o Governo não atender, na plenitude, às suas reivindicações, ora apresentadas na marcha a Brasília. Os recursos de R$ 3 bilhões anunciados que o líder ruralista Ronaldo Caiado até duvida que sejam liberados são considerados insuficientes, porque a pedida é, pelo menos, o dobro. Se plantar dá prejuízo, não plantar significa livrar-se disso é a dramática sentença de líderes rurais. Isto é muito mais grave do que supõem os governantes, destacadamente o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que além de negar recursos ainda desdenha, como fez agora ao não comparecer a uma reunião técnica que havia sido marcada com os reivindicantes. Ele alegou outro compromisso, que era assistir a uma solenidade política, e natural que esse fato irritou os produtores que se encontravam na capital da República, porque esse ato teve o sentido de descaso. É mais difícil o Governo Lula exercer governabilidade se o seu mais poderoso ministro deixa de comparecer a um encontro tão importante como esse, que chega na crista de um organizado movimento reivindicatório que aportou em Brasília com milhares de homens do campo e suas máquinas agrícolas e caminhões, justamente para sensibilizar os governantes e toda a nação. O próprio Banco Central, em documento ora divulgado, afirma que os agricultores perderão renda e, com isso, haverá menos consumo, com reflexos na atividade econômica. Afirma ainda que poderá haver efeitos sobre o preço dos alimentos, sobre o volume das exportações e sobre a inflação. Descuidos como este do ministro inconsequente e a falta de pulso firme do presidente, que permite atitudes como essa, podem levar a uma degringolada de graves consequências. Com a saída providencial do ministro José Dirceu que era um entrave no Governo houve quem sugerisse o espirro também de Palocci, mas não aconteceu e, assim, o presidente Lula fica cativo da pouca lucidez de seus próprios homens-chave. Com a queda das safras no Sul uma das razões das reivindicações de agora houve também um reflexo sobre as vendas gerais, nos estados cuja economia é dependente da atividade rural. Se houver também uma diminuição das vendas externas dos produtos da agropecuária, por falta de atendimento pleno à demanda em face da escassez de mercadoria, aí a crise será mais séria do que os abalos motivados pela onda da corrupção, porque a corrente derivará da área da moral pública para a do enfraquecimento da própria dinâmica da economia, eis que, da agricultura e da pecuária fornecedoras de alimentos e de matéria-prima quase tudo depende.

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