Tenho acompanhado com apreensão várias manifestações "populares" pedindo a cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff. Algumas delas com viés reacionário pedindo a volta dos militares. Entendo que isso é um fogo de palha, um desserviço à democracia e um desvio do foco do verdadeiro problema nacional.
As eleições passaram. Não existe terceiro turno. No entanto, o Brasil se encontra hoje numa situação limite. Crescimento econômico pífio – quase zero! Inflação como ameaça real e constante. Demora na escolha dos principais ministros do segundo mandato. Desencontro – no mínimo – entre o partido no poder e a governanta de plantão! Ameaça de ruptura entre a base de sustentação parlamentar e o governo. Tudo isso seria trágico para quem está iniciando um novo mandato! Mas é insignificante comparado com o caos que se instalou no País em torno de uma das mais significativas ações da Justiça contra a corrupção.
A prisão dos responsáveis pelas maiores construtoras do país e a busca dos corruptores do sistema, desnudam o que o senso comum brasileiro sabe, desde que a ditadura nos deixou o sol brilhar sobre a cabeça. A conspiração envolvendo políticos, construtores e diretores de grandes empresas, arruína o país e furta qualquer crença que ainda houvesse nos que conduzem a res publica!
Diretores presos; construtoras sob suspeita; Brasil parado! Não podemos concordar com a presidente de que "não seria um escândalo que pararia o país". Não estamos falando de "um escândalo". Assistimos de camarote ao surgimento do ninho da cobra. Da verdadeira nascente das águas poluídas que geram morte neste país. A concupiscência do poder pelo poder e a verdadeira história que se escondeu sempre por trás da oficial em que esses entes nefastos assaltaram e levaram o que tanta falta faz aos cidadãos. O Brasil do PAC 2 vai parar. As obras ficarão incompletas e se deteriorarão. A infraestrutura perderá de novo o bonde da história e o dinheiro comprometido em superfaturamentos e lavandarias perversas nunca mais retornará ao erário público.
Esse momento não é de impeachment. É de demissão! Não pode o Brasil ser passado a limpo – e é isso que se pretende – ficando refém do jogo do "sabiam ou não sabiam"! O que significará, afinal, dizer que a presidente (ou os presidentes) sabia ou não?! Parece-me uma questão semântica apenas! Ela foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras e depois presidente da estatal, no governo Lula, em que, segundo a Operação Lava Jato desde 2006 ocorriam os assaltos! Não sabemos o quanto eles tinham ou não conhecimento e sempre ficará o privilégio da dúvida. Mas isso é irrelevante! O que a nação inteira sabe é que quem foi eleito para cuidar da coisa pública e zelar pelo patrimônio nacional, o deixou furtar sob seus olhos e se beneficiou da tal da governabilidade lubrificada e alimentada pela dinheirama da roubalheira! Ora, o que se espera de uma pessoa honrada? Que venha a público e se declare inapta para servir 200 milhões de concidadãos que esperavam bem mais do exercício de seu cargo! O que significam as políticas públicas sob a batuta do desvio de tanto ou mais dinheiro dos cofres públicos? Num país mais sério, a demissão é o caminho mais nobre e honrado perante a teia de destruição do país que estamos assistindo nesta operação.
Tentar cassar a presidente, prolongando o período eleitoral é um tremendo de um equívoco. Esperar que ela viesse a público se penitenciar e se demitir por não ter evitado o desvio do equivalente a milhares de "minhas casas, minha vida", é legítimo a cada cidadão. Não podemos aceitar o lero lero de que sob sua "gerência", a Polícia Federal e o Ministério Público agiram mais do que em qualquer momento na história deste país! Até os recém-nascidos sabem que graças a uma Constituição que nos orgulha, estes órgãos não estão sujeitos a qualquer governo de plantão!

MANUEL JOAQUIM é padre na Arquidiocese de Londrina


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