Imobilismo e retórica
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 1997
Antônio Delfim Netto 
Na longa entrevista que concedeu esta semana na TV à simpática jornalista Lilian Witte Fibe, o presidente Fernando Henrique explicou muita coisa, transmitindo com a habitual fluência sua visão otimista diante dos problemas. Mostrou S. Exª que está bem a par da natureza dos problemas e reagiu com vigor às críticas que são feitas a seu governo nas áreas da saúde, educação e previdência, dentre outras.
Excelente comunicador e dono de uma retórica poderosa, o Presidente passa ao espectador a impressão de que seu governo está solucionando todos os problemas, mesmo quando deixa de enunciar as soluções. Foi o caso, por exemplo, da questão crucial do desemprego, apenas aflorada no programa e da qual o Presidente se desviou, buscando refúgio nas benesses produzidas pelo Plano Real. A estabilidade é uma coisa tão formidável e decisiva que já produziu as condições para a retomada do crescimento e da expansão dos níveis de emprego, no futuro. Em decorrência da estabilidade estabeleceu-se um clima propício aos investimentos que, no futuro, trarão os empregos de volta. O de que nós precisamos, acima de tudo, é afastar a fracassomania dos críticos e sustentar o clima de otimismo.
Não se sabe exatamente a que futuro o Presidente está se referindo, mas pode-se imaginar que o futuro começa com o segundo mandato de S.Exª. Alguns de seus ministros mais influentes têm feito referências semelhantes, indo mais além: O Brasil está sendo construído a partir do atual governo, que ainda vai demorar um pouco a resolver as dificuldades do presente, herdadas de governos passados, mas com a garantia de um futuro radioso que acontecerá, seguramente, a partir da reeleição...
A reeleição é uma probabilidade, mas pode fugir ao alcance, se suas ExªS não descerem às ruas desde já para avaliar mais corretamente as tensões que estão se agravando em decorrência do desemprego.
Ninguém discute que a estabilidade é condição necessária para a retomada do crescimento, e não se despreza os efeitos que ela produziu inicialmente na recuperação da renda dos trabalhadores. É evidente, porém, que as políticas que garantem a estabilidade não estão gerando as condições suficientes para a retomada do crescimento e o consequente aumento da oferta de empregos.
Os investimentos de que fala o Presidente estão, em sua maioria, em fase de planejamento ou em compasso de espera diante das altas taxas de juros. A manutenção é longa, não há notícia de investimento voltados para as exportações que não crescem o suficiente para responder a uma eventual redução dos financiamentos externos, aos custos das importações e para dar sua contribuição ao crescimento do PIB.
Há desgaste em relação aos benefícios do Plano Real e uma crescente insatisfação diante da imobilidade do governo. Há confiança no futuro, mas o presente sufoca. Se essas considerações não entrarem no rol das preocupações do Presidente e de seus ministros, não há retórica que resolva.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento


