IMIN-100 - Tradição japonesa em transformação
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quinta-feira, 15 de maio de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
O ano era 1930. Tatsuzô Ishikawa, então com 24 anos, inscreve-se no programa de imigração para o Brasil se comprometendo a enviar artigos para uma revista japonesa contando sobre a viagem. Após um ano e meio por aqui, ele retorna ao Japão e decide escrever o livro ''Sôbô'', que descreve com riqueza de detalhes o sofrimento dos imigrantes japoneses que vieram trabalhar nas fazendas de café do interior de São Paulo.
Em comemoração aos 100 anos da imigração japonesa, a obra acaba de ser traduzida para o português. Em entrevista à FOLHA, a diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa da UEL, Maria Tomimatsu, uma das tradutoras do livro, faz uma análise do processo de imigração, da manutenção da cultura japonesa do Brasil e do tratamento que os brasileiros descendentes recebem quando buscam a vida no Oriente.
Os primeiros relatos dos japoneses que chegaram ao Brasil é de muito sofrimento. A senhora acredita que esse período ruim foi fundamental para que eles se destacassem na sociedade brasileira?
Quando os japoneses chegaram aqui, eram chamados de macacos porque tinham o hábito de carregar o bebê nas costas, tinham um físico em desvantagem com relação aos ocidentais. Foi uma situação muito difícil. A pessoa que passa por dificuldades se fortalece, é natural. E os japoneses sempre tiveram orgulho de serem japoneses, independente das circunstâncias. Esse espírito de vencer as dificuldades sem dúvida fez com que tivessem uma integração melhor dentro da sociedade brasileira, com muitos se destacando.
A tradição está sendo mantida ou vem se perdendo com o tempo?Essa tradição cultural japonesa passou por um filtro brasileiro e vive outra realidade. Não é exatamente uma cópia, uma reprodução. É uma maneira de conservar a tradição, adequando-se ao contexto brasileiro. Não deixa de ser uma conservação da cultura, mas também não há como negar que houve uma transformação. O que acontece no Japão não é o que acontece no Brasil.
Não podemos dizer então que os mais jovens estão perdendo o laço com a cultura japonesa?
Não sei se cabe esta expressão ''perdendo''. Quando um povo migra para outro país, a tradição se transforma de geração para geração. Não podemos esperar que se conserve a tradição do jeito como era quando as pessoas chegaram aqui. Eles não continuam preservando a habilidade linguística. A língua materna aqui é o português, então os mais jovens deixam de lado a língua japonesa, não tem jeito. Por outro lado, eles conseguiram manter e disseminar alguns hábitos da cultura japonesa, principalmente a gastronômica, que os brasileiros estão apreciando bastante.
Falando um pouco do processo inverso, dos brasileiros que foram para o Japão. Como a senhora analisa esse êxodo? Os brasileiros hoje são mais bem vistos e respeitados que antigamente ou ainda existe preconceito?
Preconceito ainda existe sim. É muito diferente você ir para o Japão como trabalhador ou como estudante bolsista, convidado pelo governo. O tratamento é outro. Existe uma preocupação por parte do Japão em lidar com essa situação, mas infelizmente o preconceito persiste.
O que pode ser feito para mudar essa imagem negativa do brasileiro lá e, consequentemente, reduzir o preconceito?
É difícil, precisa começar com os detalhes. O brasileiro deve cultivar uma amizade saudável. Os japoneses conseguindo entender e enxergar o lado bom do brasileiro, é um bom começo. Um caso aqui, outro ali, vai revertendo a situação. O processo é demorado, porque as pessoas não conseguem enxergar o que o brasileiro realmente é. Mas não são todos que têm preconceito, aqueles que tiveram uma experiência no exterior possuem outra visão.


