No país cuja história se confunde com a absorção de imigrantes, existem os americanos e os ''outros''. O tratamento muda conforme a origem do imigrante, bem como as possibilidades de se desenvolver profissionalmente, inclusive em carreiras acadêmicas e nas empresas. Nesse contexto, os imigrantes europeus têm uma posição privilegiada, enquanto os brasileiros estão entre os mais discriminados nos Estados Unidos.

As conclusões fazem parte da tese de doutorado da psicóloga Sheila Skitnevsky Finger. Durante o período que ficou nos EUA, ela trabalhou em universidades e clínicas médicas, atendeu vários estrangeiros e pôde perceber essa realidade de perto, conforme revela nesta entrevista à FOLHA.

O brasileiro sofre uma discriminação diferente de outros imigrantes?
Sim, e uma das explicações é justamente porque entramos para a categoria de latinos, de forma generalizada, e nossas diferenças culturais não são muito respeitadas. Alguns americanos já perceberam que os brasileiros não falam espanhol, mas não compreendem que existe uma diferença cultural importante entre a cultura brasileira e a cultura espanhola. Tem a discriminação da cultura americana contra o que eles chamam de ''pessoa de cor'', que não é somente o negro, mas também os marrons (latinos), os amarelos (asiáticos) e os índios nativos. As pessoas que vêm da Índia, que têm um nível cultural e acadêmico melhor, mais sofisticado, não são vistas como pessoas de cor. Do ponto de vista cultural, como a Índia tem colonização inglesa, tem aproximação com a cultura européia, os indianos são vistos como brancos.

Por que os europeus, de um modo geral, levam vantagem sobre os outros imigrantes?
Quando os colonos ingleses chegaram nos Estados Unidos, já existiam tantos grupos, línguas e civilização no que foi chamada de América como havia na Europa naquela época. Eles não inauguraram uma nação, criaram uma nação deles. Mas criaram estabelecendo que a origem verdadeira, mais nobre, é o que eles chamam dessa ancestralidade européia e branca. Um exemplo muito interessante são os irlandeses. Eles eram a escória nos Estados Unidos porque eram católicos e tão discriminados quanto os negros. Houve um momento em que, por interesses políticos, os americanos passaram a vê-los como brancos. Não era só chamar de branco, isso significava capacidade de voto, de se candidatar. Os Kennedy eram católicos e irlandeses.

O brasileiro que fala o idioma fluentemente, tem um nível socio-cultural melhor, sofre a mesma discriminação?
A imagem do brasileiro é mais ou menos a mesma que se tem do mexicano. São pessoas de classe social mais baixa que estão indo lá para aceitar qualquer tipo de emprego. Quando um brasileiro vai para os Estados Unidos e realmente se ressalta, por causa de qualidades, de estudo, de capacidade, ele vai sofrer menos discriminação que seus pares. Mas se tiver uma vaga em universidade pra dar aulas e houver dois candidatos, um brasileiro ou latino e outro de origem européia, se tiverem a mesma capacitação, a tendência é que o europeu receba esse emprego.

O brasileiro que pretende ir para os Estados Unidos deve tomar qual atitude?
A primeira coisa é tentar instrumentalizar essa pessoa para compreender melhor essa questão da discriminação. Se alguém quer ir pra lá, o melhor é se preparar, ler livros, buscar informações de como o brasileiro é visto. Muito do choque do brasileiro é porque acha que vai ser visto como aquele latino no sentido de carnaval, futebol, alegria. Existia esse exotismo, principalmente na Europa. Mas nos Estados Unidos, a imagem que tem do brasileiro não é mais essa. O brasileiro chega lá fazendo essa graça toda, sem ter essa compreensão de que vai sofrer discriminação.

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