Imagens para guardar. Ou não.
Cada leitor guarda uma imagem de sua preferência em 2009. Há imagens tristes, que podemos deletar da nossa memória. Chocantes. Há imagens de ato triunfal, como a decisão do Comitê Olímpico que escolheu o Brasil como sede dos Jogos em 2016. As que nos envergonham: o dinheiro nas meias do DEM. São muitas as cenas e seus significados.
Mas existem aquelas emblemáticas, tristes mas emblemáticas. Guardá-las significa cobrar algo de nós mesmos. É educativo tê-las reacendendo nossa memória.
Exemplo? O olhar do caseiro Francenildo dos Santos, no julgamento de Palocci, ex-ministro da Fazenda, no final de agosto. Palocci era acusado de mandar violar a conta de Francenildo, na Caixa Econômica. Foi uma atitude arbitrária para provar que Francenildo havia recebido propinas para acusá-lo de comandar a chamada República de Ribeirão Preto, um antro de negociatas e outras imoralidades. Ao depor na CPI dos Bingos, em 16 de março de 2006, o corajoso Francenildo sustentou que Palocci frequentava a casa.
A represália foi imediata: Palocci chama o presidente da Caixa Econômica ao seu gabinete. De volta para a Caixa, Jorge Mattoso pede o extrato da conta de Francenildo e encontra dois depósitos. Detonaram o rapaz. Só que os depósitos foram feitos pelo pai de Francenildo e nada tinham a ver com propina.
O operário denunciou Palocci em iniciativa própria e patriotismo. E não por dinheiro, portanto.
Em agosto o STF absolve o poderoso Palocci. A imagem é uma foto estampada na capa de O Estado de São Paulo. O advogado de Palocci deixa, feliz e saltitante, o local do julgamento, sob olhar desiludido do fragilizado Francenildo. Quem leu as entrelinhas de tal imagem sentiu-se impotente e humilhado.
O jornalista Jânio de Freitas escreve na Folha de São Paulo: Palocci não emitiu uma só palavra em favor da verdade no caso da quebra de sigilo do caseiro.
Sobre a Justiça deste país: A recusa de processo contra Palocci fez mais do que livrar o ex-ministro de indícios óbvios de responsabilidade na quebra de sigilo e em acusação caluniosa e pública contra o caseiro. Em plano mais amplo ficou relegada a oportunidade muito significativa para a moralidade administrativa.





