Juízes e desembargadores presos pela Polícia Federal, lentidão nos julgamentos, altos salários e benefícios dos magistrados ajudam a manchar ainda mais a imagem do Judiciário brasileiro. Polido, o Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Rodrigo Collaço, afirmou que os episódios asseguram que não há mais ninguém intocável no Brasil, ''tanto que juízes autorizam mandatos de busca e apreensão contra outros corruptos''.

Magistrado ligado à corrupção cria uma imagem negativa da categoria, não?
Evidente que uma situação como esta desgasta a magistratura e o poder Judiciário, porque de todos os poderes da República, o que tem de ser mais afastado da corrupção é o Judiciário. As decisões dos juízes são muito relevantes para a vida do cidadão e evidente que as pessoas só podem aceitar essas decisões se não estiverem manchadas pela corrupção e favorecimentos. Há um desgaste de imagem, mas por outro lado temos condições de mostrar que esses casos são isolados, que a grande maioria dos juízes é honesta, inclusive porque investiga seus próprios pares, independentemente da posição destacada que ocupam na hierarquia do Judiciário.

Prisão de juiz representa o quê?
Demonstra que o Judiciário tem um compromisso com a ética. Não temos nenhum compromisso com aqueles que mancham a toga, pelo contrário, entendemos que é importante e imprescindível afastar dos quadros quem atenta contra a ética da profissão. É uma demonstração importante, primeiro, de uma mudança no país, no sentido de que não há mais ninguém intocável; segundo, uma demonstração clara de que o Judiciário compreende que não pode ter nenhum envolvimento com a corrupção e isso inclui até mesmo a necessidade de investigar os próprios membros, independentemente da posição que ocupam.

Qual a pena prevista para um magistrado envolvido em corrupção? O senso comum critica a aposentadoria compulsória como punição.
Administrativamente, a pena maior que pode ser aplicada aos juízes é a aposentadoria compulsória. Essas pessoas que têm sido acusadas de práticas de crimes, por exemplo, na Operação Furacão da PF, se forem condenadas, recebem outra pena, que é a perda do cargo por decisão judicial. Se algum envolvido nessas operações for condenado, como consequência perde o cargo sem nenhuma remuneração. É enganoso imaginar que essas pessoas que estão sendo investigadas vão permanecer na magistratura com aposentadoria. Não vão. Perderão o cargo por decisão judicial tramitada e julgada.

Outra critica é quanto às férias de 60 dias dos juízes. Isso não contribui para a morosidade da Justiça?
Acho importante encontrarmos uma solução para que as férias dos juízes sejam realmente dedicadas ao lazer. Hoje, cotidianamente no Brasil, os juízes tiram férias para colocar o trabalho em dia. Pelos relatos que temos, e que são dramáticos, é que o juiz sabe que quando sair de férias ninguém vai cobrir seu lugar, ficando, portanto, todo o trabalho acumulado.

Por exemplo?
Vários juízes no Brasil recebem 300, 400, 500 processos por mês. Julgam mais de mil processos por ano.

Qual número seria o ideal?
Internacionalmente se fala que a média ideal para cada juiz por ano é de 300 processos. Para se ter idéia do acúmulo de serviço no Brasil, em 2005, nós tivemos 19,4 milhões novos processos para serem julgados no sistema Judiciário. Isso dá uma média muito superior a mil processos para cada juiz, por ano. Evidentemente que não há ninguém que tenha condição de julgar esses mil processos de forma tranquila, com tempo para fazer uma análise. O juiz acaba tendo que trabalhar com uma rapidez muito grande e por vezes prejudicando até a qualidade do trabalho.

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