Ilumine-se
"A ferida só fecha quando deixamos de alimentá-la com memórias repetidas"
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de novembro de 2025
"A ferida só fecha quando deixamos de alimentá-la com memórias repetidas"
Ronan Wielewski Botelho 
Luz. A vingança parece justiça, mas é apenas um eco que nos prende ao golpe que sofremos. Quem revida acredita dominar o outro, quando na verdade entrega-lhe as chaves da própria alma. Epicuro já dizia que nada basta a quem não basta o que é suficiente, e a vingança nasce exatamente dessa insuficiência: o coração ferido acha que só ficará cheio ao fazer sangrar outro coração. Sêneca, com a clareza cortante de quem conheceu o exílio e a corte, afirmava que a ira é um ácido que destrói mais o vaso que a contém do que aquilo sobre o que é derramado. Nietzsche completa o diagnóstico: o ressentimento é o veneno dos fracos disfarçados de fortes; o homem superior não se vinga porque já transcendeu a necessidade de medir forças com quem o feriu. Assim, o que chamamos de “fazer justiça com as próprias mãos” é, na verdade, prolongar a humilhação, transformar-se no carrasco de si mesmo.
A raiva é barulhenta porque precisa de plateia; a cura é silenciosa porque não precisa de testemunhas. Buda via o ódio como brasa que queimamos na própria mão enquanto esperamos atirá-la no outro. Marco Aurélio, imperador e escravo das próprias paixões, anotava à noite: “A melhor vingança é não ser como o teu inimigo”. Confúcio advertia que, antes de partir para a vingança, é prudente cavar duas sepulturas – uma para o adversário, outra para a parte de nós que morre junto. Três milênios de sabedoria convergem no mesmo ponto: quem guarda a ofensa guarda o ofensor dentro de si. A ferida só fecha quando deixamos de alimentá-la com memórias repetidas, quando paramos de lamber o sangue para provar que ainda dói.
Lao Tzu ensina que a água é o mais suave dos elementos e ainda assim vence a pedra mais dura
O perdão não é esquecimento nem conivência; é soberania. Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, descobriu que o último dos poderes humanos é escolher a atitude diante do que nos acontece – e escolheu não odiar. Gandhi transformou essa escolha em arma política: “Se seguirmos olho por olho, o mundo ficará cego”. Nelson Mandela saiu de 27 anos de prisão e convidou seus carcereiros para a posse – não por fraqueza, mas porque sabia que a África do Sul só seria livre quando ele próprio se libertasse do ódio. Perdoar é tirar o veneno da flecha e usar a madeira para construir uma ponte; é o único ato que desarma o passado sem desarmar o futuro.
Crescer é exatamente isso: fazer a dor parar em nós. Lao Tzu ensina que a água é o mais suave dos elementos e ainda assim vence a pedra mais dura – não pela força, mas por não se opor. Jesus, na cruz, pediu perdão para quem o crucificava “porque não sabem o que fazem” – frase que escandaliza os justiceiros e liberta os que entendem. Hannah Arendt, analisando o mal banal, concluiu que o perdão é o único remédio contra a irreversibilidade do ato humano; sem ele, ficamos condenados a repetir. Terminar o ciclo não é covardia, é grandeza: é decidir que a história de violência ancestral acaba na nossa geração, que a lição fica e a lesão morre.
Chega um instante em que a alma, cansada de carregar correntes forjadas por outros, simplesmente as larga. Esse instante não tem fanfarra; é um trovão interior que ninguém ouve exceto nós mesmos. Então compreendemos Rumi: “Fora das ideias de certo e errado, há um campo. Eu te encontrarei lá”. Compreendemos Cioran quando diz que perdoar é trair a dor – e que essa traição é o maior ato de fidelidade a nós mesmos. Compreendemos, enfim, que a cura não é a ausência de cicatriz, mas a presença de luz dentro dela. E, nesse instante eletrizante, a vitória silenciosa explode como um sol nascendo dentro do peito: deixamos de ser vítimas, deixamos de ser carrascos, tornamo-nos, finalmente, livres. A vingança morre. A alma renasce. E o mundo, mesmo que não perceba, fica um pouco menos pesado!
Ronan Wielewski Botelho
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