Igualdade e desenvolvimento
Quando viajo pelo mundo na qualidade de primeiro-ministro sueco, frequentemente encontro pessoas que me fazem a mesma pergunta: o que tornou possível a superação da crise econômica e a transformação da Suécia? Como fizeram para tirar a Suécia da profunda crise em que se encontrava e convertê-la, em apenas seis anos, numa sapiente e equilibrada sociedade moderna? O que tornou possível passar do desemprego em massa ao mais rápido crescimento da Europa? Como foi possível saltar de um crescimento econômico negativo para uma posição em que a economia cresce à razão de 4% ao ano?
Minha resposta também é sempre a mesma: o que tornou tudo isso possível foi a reestruturação radical do orçamento que realizamos, fazendo com que todos os cidadãos arcassem com a parte que lhes cabe do peso total e rompendo a dependência da Suécia com relação à divida externa. O que tornou isso possível foi que agimos para proteger um forte setor público financiado por impostos, que inclui e beneficia todos os cidadãos e não só aqueles em pior situação. Isso foi possível também porque fixamos metas ambiciosas para nossa política econômica e nos ativemos a elas.
Foi este compromisso que mantivemos, tanto com o crescimento econômico quanto com políticas para combater as desigualdades entre as pessoas, o que nos permitiu mudar as coisas na Suécia. As pessoas que pensam de modo conservador afirmam ser impossível lutar pela igualdade e conseguir, ao mesmo tempo, um crescimento econômico vigoroso. Eles dizem que os altos impostos são incompatíveis com o crescimento econômico e que se as pessoas se sentem extremamente seguras, vêem sufocada sua motivação para trabalhar. Asseguram, ainda, que a legislação trabalhista, que dá uma proteção completa aos trabalhadores, não combina com uma expansão econômica.
Estão equivocados. Nós, os social-democratas, sempre afirmamos que a pessoa que se sente segura é criativa. Os acrobatas do circo somente se atrevem a realizar seus números mais perigosos se sabem que a rede de segurança abaixo deles é forte e não os deixará cair no chão. O mesmo acontece com o Estado que assegura o bem-estar social. Um forte Estado assistencial permite que a pessoa que fracassa alguma vez na vida tenha outras possibilidades. Nunca é muito tarde para começar de novo. Nunca é muito tarde para se sair bem na vida.
As implicações práticas para esta política incluem fazer com que os recursos públicos sustentem a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico, que, por sua vez, ajudam a desenvolver o comércio e a indústria. Por outro lado, conseguir que amplos recursos sejam colocados à disposição da saúde, da educação e dos serviços sociais, permite que todos os membros da sociedade sintam-se seguros em meio à mudança. Investir em educação e no aprimoramento profissional permanente proporciona à Suécia a bem preparada força de trabalho e os altos níveis de valor agregado necessários para obter êxitos na competição internacional. A igualdade é produtiva. A segurança alimenta o desenvolvimento. É a aplicação destes critérios que agora está dando frutos.
O crescimento econômico na Suécia não está muito abaixo do registrado pelos Estados Unidos. O desemprego está caindo de forma consistente e aproxima-se rapidamente dos 4%. A ocupação aumenta tanto no setor privado quanto no público. A Suécia é uma das nações líderes em matéria de Internet, e Estocolmo está sendo chamada de a capital européia da Internet. A música, a pintura e a cozinha suecas estão se tornando moda em todo o mundo. Não faz muito tempo, o New York Times publicou que a Suécia, com seu amplo setor público, está desafiando a lei da gravidade. Na Suécia não houve, nem há, necessidade de aumentar as disparidades na sociedade para se alcançar uma boa taxa de crescimento econômico.
Em todo o mundo está aumentando a percepção de que a programação política é necessária para resolver problemas que as pessoas não podem resolver por conta própria. Na Suécia temos uma tradição de democracia que pretende oferecer a todos os cidadãos uma vida boa e rica, não importa em qual lugar da escala social se encontrem. É por isso que o modelo sueco goza de ampla confiança popular. Agrada-me ver que há cada vez mais forças progressistas se dando conta de que o desenvolvimento e a igualdade necessitam-se mutuamente e que não há conflito entre ambos. Também me agrada que cada vez mais pessoas estejam de acordo com a idéia de que a boa sociedade com que se sonha deve ser construída com base tanto no crescimento quanto na igualdade de direitos e obrigações.
- GORAN PERSSON é primeiro-ministro da Suécia (IPS)





