A quem interessa a defesa do emprego? A defesa e a proteção do emprego interessa aos grupos dominantes de uma sociedade? A base de uma sociedade é a sua estrutura produtiva. O emprego é o motor da produção de um determinado sistema econômico-político. Ele cria contribuição e, por sua vez, a riqueza do país. Assim, quanto mais se produz, tanto mais, poder-se-á distribuir essa riqueza. Ora, o desemprego, além de não fazer nada disso, é um elemento importante para o combate e o controle da inflação, porque quanto mais emprego se tem numa sociedade, tanto mais inflação ela possa vir a ter, então o desemprego parece estar na origem do combate à inflação.
Os ultraliberais, a partir dos anos 70, forçaram mecanismos para aumentar o desemprego. Isto irá colocar os sindicatos numa desfavorável correlação de força. Então, como entender a equação inflação-desemprego? E, como explicá-la à população que está desempregada?
Entender não parece ser difícil: quando se tinha emprego tinham-se greves cujo objetivo era questionar o modo de produção capitalista. Por um lado, elas ampliaram os direitos sociais e o poder econômico dos trabalhadores. E por outro, dizem que elas aprofundaram os índices inflacionários das economias capitalistas. Este fato permitiu aos liberais reconstruírem o seu discurso e tomar medidas para conter e disciplinar os assalariados.
Uma dessas medidas foi quebrar a organização sindical dos trabalhadores assalariados por meio da terceirização que dispersa o trabalho produtivo, o capitalismo retirou dos trabalhadores os seus referenciais de coesão, de consciência, de organização e de luta. Uma outra medida foi passar a impressão para a sociedade de que a economia não funcionava com a inflação. Instante em que o capitalismo começa operar não mais por inclusão, mas por exclusão, em que ele passou a operar não com o dinheiro como mercadoria, mas com a moeda ou com o fetiche, em que passou a operar sem aquilo que era a referência empírica para os trabalhadores, que é o enclave do Estado nacional, a partir daí o capitalismo retira suas referências de luta.
O desemprego foi o principal meio para os liberais retomarem o controle sobre os assalariados. E, a luta contra a inflação foi a forma encontrada para criar o desemprego. Qual é a relação entre a inflação e o desemprego? O lucro. Quando se tem emprego, os assalariados têm força para reivindicarem mais salário, mais salário significa redução de lucros da parte dos empresários, que por sua vez elevam os preços dos produtos para que os empresários não percam o lucro e que, por sua vez, eleva-se a inflação, culminando na possibilidade dos trabalhadores acenarem com a greve para reporem suas perdas.
Os liberais, por meio do desemprego, tocaram naquilo que é vital para os trabalhadores, a sua organização. Os trabalhadores enfraquecidos ficaram a mercê do combate à inflação. Assim, quando se afirma que ''viver numa economia estável (sem inflação) é melhor do que viver numa economia instável (com inflação)'', por um lado se está reproduzindo o caráter ideológico da inflação, e por outro, se está negando a instabilidade do sistema capitalista.
Para dar solidez ao combate da inflação foi preciso elevar as taxas de juros. E o que é pior, é que esta compreensão se manifesta como sendo natural. É natural a convivência com o desemprego desde que haja índices toleráveis (Friedman). Assim, se qualquer convivência social necessita de esclarecimento essa questão é mais do que urgente esclarecê-la para a sociedade.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor de filosofia política da Universidade Estadual de Londrina

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