Identidade e imagem
Um dos principais desafios dos políticos é estabelecer uma forte identidade e projetar uma imagem que lhe corresponda. A identidade não é uma criação artificial, como se pode pensar. E a imagem não é um artifício descolado da identidade. Identidade forte, por sua vez, não quer significar grandeza no campo de realizações nem mesmo arrojo no campo das atitudes. Trata-se de um conceito sobre uma pessoa, o conjunto das qualidades morais, a soma de suas virtudes e defeitos. Sustentam a identidade valores como a lealdade, a simplicidade, o companheirismo, a honestidade, a ética e a moral, o acervo de conhecimentos, a formação cultural, os serviços prestados à comunidade, a largueza de espírito. Perfis com forte identidade passam pela história deixando marcas indeléveis.
Cristo é um marco na história das grandes identidades. Ghandi, ícone de pobreza material, apresenta-se como um dos mais célebres símbolos da riqueza espiritual. Kennedy significou a representação de uma liderança democrática dos tempos modernos, com sua jovialidade, liderança e força de expressão. Getúlio Vargas conjugava as demandas e aspirações do moderno Estado nacional. Juscelino, com seu sorriso e jeito empreendedor, abriu as portas do espírito desenvolvimentista da era contemporânea.
Os grandes líderes do passado exprimiam, cada um a seu modo, um brilho próprio, na forma do carisma, do dom da oratória, da capacidade de mobilização das massas, da arte de fincar estacas no coração do povo. Hoje, as lideranças patinam numa gélida camada burocrática. Não sem razão, suas identidades carecem de brilho. Suas imagens aparecem como sombras opacas, artificializadas e retocadas por uma engenharia cosmética que faz sucumbir o conteúdo em detrimento da forma.
A identidade é o caráter de um político. É sua história pessoal e profissional. Se é plena de ações e serviços públicos, traz para o político um espaço de simpatia na sociedade. Se é cheia de casos suspeitos, só com muito esforço pessoal principalmente no campo das atitudes consegue-se retocar o borrão.
Ao político, um discurso forte é fator fundamental. O discurso agrega pontos de vista a respeito dos problemas sociais, a visão adequada sobre soluções, pontuações fortes a respeito de temáticas do País, do Estado e das regiões. Ao discurso, seguem-se as ações, o plano operativo.
Há pessoas que são festejadas por seu ideário, outros, por suas realizações ou personalidade. A identidade incorpora, ainda, o plano tático, a maneira de se relacionar com as pessoas, a capacidade de articulação com setores da sociedade, o modo de expressão. Estes fatores, combinados, fazem com que alguns sejam mais simpáticos que outros.
Arrumada e ajustada a identidade, deve ela ser projetada para os grupamentos sociais. Esse desafio é operado por meios e formas de comunicação. É muito importante manter elevada a visibilidade de um político, que funciona como uma espécie de ponte de ligação com o eleitorado real e potencial. O problema reside nesse ponto. A imagem não deve estar muito afastada da identidade. Uma é a sombra da outra. Quando a imagem está bem colada à identidade positiva, gera confiança e credibilidade. Quando está descolada, promove desconfiança, dúvidas, antipatia. O eleitor percebe quando um político força a barra e quer parecer melhor que sua identidade.
Para compreensão adequada, imaginemos o sol do meio-dia incidindo sobre a cabeça de uma pessoa. A sombra do corpo fica sob os pés. À medida que o sol vai baixando no poente, a sombra (a imagem) se estende para além do corpo, esgarçando-se, distorcendo o corpo. Quando um político quer aparecer com uma imagem destoante de sua identidade, gera dissonância, fato percebido pelo eleitor.
Isso ocorre frequentemente nas linhas e formas de comunicação, por conta de exageros e mesmo ignorância a respeito da maneira como o eleitor percebe e avalia o político. Um erro crasso seria trocar o nome de uma empresa, marca forte, como Petrobras para Petrobrax. Seria uma ruptura violenta da identidade. Um perfil sisudo não deve ser apresentado de maneira risonha ou o contrário.
Quando se coloca um chapéu de couro ou um cocar de índio na cabeça de um político rabugento, o resultado é ridículo. O príncipe Charles, desengonçado, dançando samba com mulatas seminuas é uma extravagância. Já o cantor Sting dançando com a Mangueira, na última semana, no Rio, está no ambiente musical-show, que faz parte de seu métier.
Políticos, mais cuidado com o andor!
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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