Há cerca de dez anos entrou pela primeira vez em meu consultório o paciente Ibrahim Abudi Neto. Na ficha clínica sobre a minha mesa, dados pessoais e como profissão: colonizador. Nunca havia atendido alguém com tal profissão. Mais tarde, compreendi que para a história da vida do Ibrahim, nada se enquadraria melhor.
Figura simpática e dominadora, desde o início o paciente perguntou mais sobre a minha vida pessoal do que respondeu às perguntas médicas que lhe foram feitas.
Em pouco tempo após esse primeiro contato nos tornamos amigos. Gostar e admirar Ibrahim foi tarefa fácil, compreendê-lo nem tanto. Adorava falar sobre os primeiros tempos do Norte do Paraná, das dificuldades enfrentadas e das matas. Descrevia momentos de truculência, mas se arrependia deles.
Orgulhava-se de ter ajudado a fundar quatro cidades e ter sido o prefeito mais jovem eleito no Brasil a sua época. Fixou-se em uma delas: Francisco Alves. Aliás, o nome dado a essa cidade foi homenagem que prestou ao Cantor das Multidões. Costumava chamá-la (a cidade) de ‘‘Chico Viola’’.
Conviveu com pessoas importantes como Assis Chateubriand, David Nasser, os irmãos Villas-Bôas, Sílvio Caldas e tantos outros. Gostava muito de João Milanez. Essas personalidades apareciam e partiam em suas histórias sem que conseguisse estabelecer um vínculo temporal. As histórias eram reais, mas havia sempre um romantismo/exagero na maneira como as contava. Era ótimo ouvi-las.
Conviveu muito mais com pessoas simples como José Abdia, o Lazinho, o Pituca, o Pantera e muitos outros. Chamava-os de suas ‘‘crias’’. Acho que foram mais como irmãos e exemplos nos quais se espelhava.
A experiência que viveu no Xingu com os irmãos Villas-Bôas, pareceu-me tê-lo marcado profundamente. Via a mata, a terra e a vida de maneira simples e ao mesmo tempo mística.
Repetidas vezes falava de uma certa caminhada dentro da mata fechada por vários dias. Percebia-se respeito e um certo medo dos ‘‘poderes da natureza’’. Conservou uma grande área de mata virgem na sua querida Fazenda Barra Dourada que era seu orgulho. Tinha conceitos próprios de preservação.
Sua vida pessoal foi preenchida por parcerias marcantes e tragédias. Teve filhos adotivos. Não foi um pai comum, bem convencional, mas orgulhoso dos seus filhos. Zelou pelos seus irmãos.
O seu escritório na Barra Dourada continha relíquias que gostava de exibir. O primeiro telefone, a foto de um boi que adquiriu de Celso Garcia Cid, uma máquina de escrever que foi de David Nasser, uma foto de Assis Chateaubriand com dedicatória e fotos no Xingu com Orlando Villas-Bôas. Na garagem, um automóvel Mercury 1948 em ótimas condições, que foi utilizado por Getúlio Vargas. O governador Jaime Lerner, do Paraná, inaugurou a ponte entre o Mato Grosso do Sul e o Paraná com o mesmo carro. Sua casa foi sempre simples e acolhedora. Na cozinha, o fogão a lenha era a preferência. Nunca se rendeu muito à tecnologia.
Fico triste que a história do Paraná que Ibrahim Abudi Neto ajudou ativamente a construir não esteja contada em livro. Foi um romance épico, único, com todos os ingredientes da vida de uma verdadeiro colonizador.
Certamente, ao longo de sua vida Ibrahim colecionou amigos, admiradores e também inimigos. Talvez a liberdade, a juventude constante e o poder tenham trazido dureza à vida de Ibrahim. Ao mesmo tempo, a rica e profícua experiência lhe trouxe generosidade e grandeza. Alguém o chamou de ‘‘Tuaregue’’.
O Paraná perdeu um pioneiro e eu um grande amigo.
- MARCO AURÉLIO DE FREITAS RODRIGUES, médico, Londrina

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