Gozações, piadinhas, ofensa, humilhação. O que para muitos é tido como simples brincadeira, para outros deixa marcas permanentes. Para esse tipo de violência, associada a apelidos ligados à imagem corporal, dá-se o nome de ''Bullying'' (do inglês - ameaça, intimidação, maltrato).
Para a modelo londrinense Lizze Rocha, atualmente residindo na Europa, onde trabalha, as brincadeiras de mau gosto tiveram início aos 10 anos. ''Da 4 à 6 série, quando comecei meus estudos em um colégio, era muito alta e magra. Então, me chamavam de Olívia Palito, vara de cutucar estrelas e girafa ambulante. Para completar, me excluíam dos grupos''.
A reação diante de tamanha pressão? Lizze disfarçava e afogava as mágoas no colo da mãe. ''Queria bancar a legal, fingia tirar de letra, mas sempre acabava chorando em casa, pra minha mãe'', relembra.
Aos 12 anos, a outrora tida como ''patinho feio'', passou a viver seus dias de cisne. ''Os meninos ficavam de olho, mandavam cartinhas e até flores'', conta a londrinense de 19 anos, que, entre outros países, desfilou na Grécia, Turquia e Alemanha.
O calvário diante dos amigos começou um pouco mais cedo para a estudante do ensino fundamental Maria Clara, nome fictício, de 12 anos. Os longos cabelos ruivos e as sardas converteram-se em estopim para as piadinhas, já aos 7 anos. Até música criaram para a garota. ''Na Educação Física, quando misturavam os meninos e as meninas, no intervalo, na saída do colégio, onde quer que fosse eles cantavam, minha filha chegava a soluçar de tanto chorar'', conta a mãe da garota, que optou por transferi-la de colégio.
Acadêmica de Direito, Bárbara Daher Abu-Jamra, de 17 anos, foi alvo do bullying dos 8 aos 14 anos. ''Acho que fui a pessoa que mais teve apelidos, com intuito de gozação, na minha classe. Meus colegas sempre me davam um apelido, talvez porque ficasse brava e não soubesse lidar com aquela situação'', revela.
O repertório? Mais do que vasto. ''Eu era bem gordinha, então a cada semana me davam um apelido, já tive vários! Desde meu peso até minha ascendência libanesa, tudo era motivo para me provocar: era turca, libanesa e por aí vai'', rememora Bárbara, que hoje exibe a figura enxuta após um tratamento de reeducação alimentar.
Simpática e desenvolta, Bárbara perdia o bom humor quando provocada. ''Tinha vezes em que até batia nas pessoas. Chorava muito'', conta. Perguntada se guarda mágoas, é categórica. ''Não, de maneira nenhuma. Faz parte da idade. Hoje, agiria diferente, não demonstraria irritação''.
Para a psicóloga, especialista em psicologia educacional e coordenadora pedagógica do Colégio Maxi, Celi Lovato, o bullying não é novidade. ''Apesar de os estudos sobre o bullying estarem amplamente divulgados agora, ele não é recente e não deve ser encarado como brincadeira normal ou eventual de criança. Ofender, humilhar, excluir, agredir, zoar, quebrar ou roubar pertences, são atitudes agressivas, intencionais e repetidas, praticadas por um ou mais contra outros, que apresentam características diferentes'', acentua.
Segundo pesquisas, os meninos lideram a lista de ''ocorrências''. ''Eles estão mais envolvidos, tanto como autores, quanto como alvos. Porém, enquanto os meninos se utilizam de agressões físicas ou verbais diretas para intimidar, as meninas têm sua maneira mais sutil e velada para humilhar as colegas, mas não menos cruel, lançando mão da exclusão, difamação, fofocas e olhares'', explica a psicóloga.
Para que casos como os de Lizze, Maria Clara, Bárbara e tantos outros não se repitam, Celi hasteia a bandeira da causa e consequência. ''Não podemos nos omitir: quando é percebido pelos professores, familiares, amigos, deve-se agir imediatamente, deixando muito claro que não será tolerado. Cada escola, cada família precisa usar de sanções que julgar corretas e observar muito, pois, se houver reincidência, com certeza tanto a vítima, quanto o agressor precisam de ajuda. Agir com rapidez pode, com certeza, evitar situações mais complicadas e até trágicas'', sentencia.

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