Humana convergência
Humana convergência
Milton Mira Assumpção Filho
A relação de tempo e espaço, que sempre estabeleceu parâmetros para o ser humano, foi absolutamente subvertida no universo virtual. Na Internet, tudo é onipresente, simultâneo. O mundo é uma tela. Talvez por isso, a velocidade com que se desenvolveu a chamada economia da Web não tenha qualquer precedente na história.
A Internet já existia na década de 60; a World Wide Web foi concebida em 1989, como ferramenta de compartilhamento de dados científicos e, em 1995, passou a ser o ambiente para a nova economia. Nestes últimos cinco anos, milhares e milhares de empresas, cuja configuração seria totalmente inconcebível antes do browser, nasceram, prosperaram, forjaram milionários. Muitas já desapareceram, outras foram vendidas e algumas têm valor, no mercado de ações, igual ou superior às maiores empresas da economia convencional.
Os especialistas, em mais um exemplo de que o tempo na Web tem outro referencial, referem-se ao ano de 1995 como o período primitivo da economia virtual. Ou seja, as primeiras empresas surgidas à época, que praticavam, basicamente, o varejo virtual, já sofreram transformações radicais, ampliando a gama de serviços, informações e possibilidades ao alcance dos navegadores.
Apenas para traçar um paralelo, o conceito de qualidade, que caracterizou a principal transformação do modelo operacional das empresas da economia física, foi um processo com duração de quase 50 anos, considerando-se como o seu marco a Segunda Guerra Mundial. Hoje, organizações que não se adaptaram aos padrões de qualidade sucumbiram à globalização. Na Web, já existem dinossauros com apenas cinco anos...
A volatilidade de algumas empresas da nova economia explica as abruptas oscilações da Nasdaq, à qual alguns milhares de norte-americanos já confiaram o futuro de suas aposentadorias, durante anos a fio confiadas à segurança das tradicionais organizações do universo Down Jones. Se, em apenas cinco anos, assistiu-se a tudo isso na webeconomia, o que acontecerá daqui para a frente? Certamente, as transformações serão ainda mais fulminantes.
Tudo indica que a competição exacerbada, até agora um fenômeno da economia física da globalização, será transportada para o universo on-line. Há inúmeras empresas na Web, mas não existem tantos negócios assim, alerta Tim Koole, CEO da Yahoo. Mais do que profética, a observação é conclusiva: depois de uma euforia de cinco anos e da proliferação e do sucesso de milhares de negócios, fossem eles de fato bons ou não, lucrativos ou deficitários, a webeconomia passará a ser mais seletiva. Viverá uma verdadeira seleção natural.
Quando apresentou sua teoria da evolução em 1859, Charles Darwin descrevia um mundo em que apenas os mais fortes sobrevivem, em que as espécies precisam adaptar-se constantemente a seu ambiente em mutação ou enfrentar a extinção; um mundo em que as formas de vida precisam olhar ao redor e aprender com quem cooperar e com quem competir. Darwin até mesmo escreveu que estamos todos entrelaçados em uma complexa teia de relacionamentos. Este léxico se aplica, inequivocadamente, ao cenário dos negócios atualmente em franca expansão e mutação na World Wide Web, observa o especialista Evan I. Schwartz, no livro Darwinismo Digital.
O caráter seletivo da Web deverá seguir o mesmo caminho da economia corporativa, ou seja, qualidade, preço e boa relação custo-benefício para o consumidor. As pessoas comprarão on-line, mas apenas produtos e serviços com rico conteúdo informativo, que façam valer a pena o tempo e o esforço despendidos com a pesquisa, salienta Schwartz.
Numa relação de tempo-espaço quase surrealista, com tecnologias e sotfwares futurescos, a webeconomia atinge, contudo, o mesmo gargalo da economia convencional, numa humana convergência. Afinal, ambas são moldadas pelas necessidades do Homo sapiens, este incorrigível predador, que, há 3,5 milhões de anos, quando começou a domar a natureza, permanece no topo da cadeia alimentar...
- MILTON MIRA ASSUMPÇÃO FILHO é escritor em São Paulo





