Novembro de 1961. O mundo está estarrecido com a construção do Muro de Berlim e o Brasil apreensivo com a posse de João Goulart na presidência da República por causa da renúncia de Jânio Quadros. Vivia-se o auge da Guerra Fria, a disputa geopolítica e ideológica, travada pelos Estados Unidos e União Soviética. No Brasil, esse duelo convulsionava corações e mentes e agitava os quartéis. No Colégio Hugo Simas, o mais tradicional de Londrina, uma multidão, instigada pelo vigário da catedral, tentou impedir a palestra de Francisco Julião.

Líder das Ligas Camponesas, Julião pedia melhores condições de trabalho aos empregados das lavouras de cana de Pernambuco e a reforma agrária. A tentativa foi repelida no muque por um grupo de estudantes de Direito liderados por Délio César, que viria a se destacar no jornalismo, e pelo marmorista e poeta Mário José Romagnolli, que, agredido – tinha mais de 50 anos e era deficiente visual e magro como uma bengala -, disparou para o alto seu Smith & Wesson .32. Romagnolli divergia de Julião, mas considerava que ele tinha o direito de expor suas ideias.

Novembro de 2019. Insuflada por uma mãe que se apresenta como “cristã e conservadora”, uma multidão de internautas se rebela contra a direção do Colégio Hugo Simas por causa da exibição da peça “Quando Quebra Queima”. A peça, que já correu o Brasil e outros países, faz parte da programação do Festival Internacional de Teatro de Londrina – fundado por Délio César -, tem indicação etária de dez anos e sua exibição foi autorizada pelo Núcleo Regional de Ensino. Retrata a rebelião dos estudantes secundaristas de São Paulo contra o projeto do então governador Geraldo Alckmin de fechar 100 escolas. A rebelião durou semanas, irradiou-se Brasil afora e forçou o governador a recuar.

icon-aspas O Youtube exibe documentário sobre a peça e algumas passagens. Era só acessá-lo.

A mãe “cristã e conservadora” fez seu protesto baseado no depoimento da filha, que se escandalizou com as cenas de resistência à Polícia Militar, usada sem piedade contra os estudantes paulistas, diversidade racial e sexual. Pelo relato da mãe, deduz-se que a filha não entendeu a mensagem da peça e que a mãe não se deu ao trabalho de pesquisar seu conteúdo. O Youtube exibe documentário sobre a peça e algumas passagens. Era só acessá-lo.

Entre um episódio e outro passaram 58 anos. O homem foi à lua, as mulheres se impuseram ao mercado de trabalho, a rebelião na Sorbonne em 1968 deflagrou a liberdade sexual, a comunicação se tornou universal e instantânea com o advento da internet. Jango foi deposto pelos militares, que impuseram um regime ditatorial durante duas décadas e, após promover a miragem do “milagre brasileiro”, legaram uma economia em frangalhos. Recuperamos a democracia e recompusemos as finanças públicas, que voltariam a ser dilapidadas pelo lulopetismo, depusemos dois presidentes e elegemos o capitão reformado Jair Bolsonaro, que personifica a ala mais radical dos militares que comandaram o Brasil.

O Muro de Berlim foi derrubado há exatos 30 anos – simbólico este mês de novembro! – e com ele ruiu o comunismo, o mais desastroso e brutal regime político de que se tem notícia. O comunismo perdeu território e a perspectiva de ressurreição, mas uma corrente da opinião pública, que se proclama “cristã e conservadora”, o tem como ameaça iminente. Essa corrente se insurge contra tudo o que considera contaminado pelo comunismo – a arte, o jornalismo livre, a diversidade em todas as suas manifestações. O senso crítico. E anseia pela volta dos anos de chumbo, cultuados como paradigma de democracia. A insurreição atual contra o Hugo Simas não tem o apoio do clero, como a de mais de meio século atrás. É que até os padres – o arcebispo e o papa também - são tidos por “comunistas” pelos “cristãos conservadores”. Como evoluímos!

José Antonio Pedriali, jornalista em Londrina.

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