HU tenta sobreviver à crise
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sábado, 16 de fevereiro de 2002
Ana Margarida Setti Rosa Especial para a Folha 
O Hospital Universitário é um hospital-escola, que oferece oportunidade de residência médica e de estágio em diversas especialidades, como farmácia, enfermagem, fisioterapia, e abre campo de trabalho, todos os anos, para cerca de 150 alunos. Por outro lado, tem importância inquestionável para a comunidade, atendendo não só moradores de Londrina, como de outras regiões e Estados.
Em 2001, dos cerca de 163 mil atendimentos prestados pelo HU e ambulatório do Hospital de Clínicas (HC) da UEL, pouco mais de 36 mil aproximadamente 23% do total destinaram-se a moradores de outras procedências.
Com a greve e o impasse que se seguiu e que ainda se prolonga, a crise se instalou em dois níveis: no da formação profissional, já que o efetivo se reduziu ao mínimo indispensável para atender emergências, e, de forma mais contundente, no da comunidade. Cerca de 45 mil atendimentos, incluindo fisioterapia, e 1.300 cirurgias já programadas, deixaram de ser feitos desde o início do movimento, em setembro.
Hoje, por força de liminares, 88,73% do efetivo do HU já estão de volta ao trabalho. Como consequência, 69% dos leitos oferecidos pelo hospital voltaram a ser ocupados. O HC, no entanto, o braço ambulatorial do HU, está demorando mais a se normalizar. Depois da liminar comenta Cláudio Camacho, diretor-superintendente do HU tivemos de pedir 15 dias de prazo, encerrado no dia 7 de fevereiro, para proceder à limpeza e à manutenção dos equipamentos. O HC havia ficado totalmente fechado desde a deflagração do movimento. No dia 14 de fevereiro, era possível contabilizar o retorno de 64,51% do efetivo do hospital.
Mas a crise ou o prolongamento dela deixou sequelas também na saúde financeira do hospital. Como o HU continuou, nesse período, a atender emergências, tendo permanecido inclusive com a UTI e a maternidade para casos de alto risco, totalmente ocupadas, foi preciso manter funcionando um mínimo de infra-estrutura do hospital farmácia, laboratório, restaurante, segurança, limpeza etc. Segundo Cláudio Camacho, houve um custo quase normal para um faturamento abaixo do normal, pois o hospital recebe do SUS por serviços prestados. Com isso, restou um prejuízo que é irrecuperável.
O hospital não tem dívidas, sempre honrou e vai continuar honrando seus compromissos, afirma o diretor-superintendente. Mas, com certeza a repercussão dessa perda vai ser sentida mais à frente, na manutenção dos equipamentos e no investimento destinado à compra de novos aparelhos. Espero que esse prejuízo não chegue a comprometer a aquisição de material cirúrgico e de atendimento, de uso cotidiano.
Ainda na opinião de Camacho, a greve se prolongou demais e muita gente está sofrendo com isso. Ele se preocupa, em especial, com o descontentamento e com a desmotivação do grupo sob seu comando, desgastado por uma crise que parece sem solução. Não podemos esquecer que aqui lidamos com vidas. Por outro lado, confia na tradição de envolvimento e de comprometimento de sua equipe, que conseguiu conquistar dois importantes prêmios de reconhecimento público.
O Prêmio de Qualidade foi outorgado no ano passado pelo Ministério da Saúde ao HU, com base em avaliações feitas com usuários. Somente 9 hospitais no Brasil, entre os conveniados com o SUS, fizeram jus a ele. Em 2000, após 5 anos de investimento em treinamento e conscientização dos funcionários, o HU conseguiu obter a chancela de Hospital Amigo da Criança, uma indicação feita, obedecendo rigorosos critérios, pelo UNICEF.
O que vai sobrar de tudo isso, dessas conquistas, depois da crise?, pergunta Camacho. A pergunta fica no ar, pois ainda não existe uma resposta.


