Hotel memorável - Helio Duque
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terça-feira, 24 de março de 1998
Helio Duque 
Por décadas foi o mais tradicional hotel de São Paulo. No prédio da rua Major Quedinho, sede de O Estado de S. Paulo, alguns andares era ocupado pelo Hotel Jaraguá. Austero, civilizado e acolhedor, era uma casa clássica, no seu apogeu. A vida política paulista e brasileira tinha cadeira cativa no Jaraguá.
Em 1970 estava lançando o livro A Guerra do Café Solúvel, em São Paulo. Num final de tarde, o saudoso amigo Horácio Coimbra levou-me à redação do Estadão para apresentar-me ao jornalista Frederico Heller, editor de economia. No auge da conversa com Dr. Heller, austríaco que fugindo do nazismo fora acolhido pela família Mesquita, chega à sala Luiz Carlos Mesquita (nome dado por Júlio de Mesquita Filho em homenagem a Luiz Carlos Prestes, herói da Coluna, ao seu filho mais novo) abraçando a todos, espontaneamente. E faz a convocação.
- Vamos tomar um uísque no bar do Jaraguá.
Para lá fomos todos. A conversa, o papo inteligente, alongou-se pela noite. Mais tarde chegou Ruy Mesquita, concunhado de Horácio. Carlão, era assim chamado o irrequieto Luiz Carlos, falava do Jornal da Tarde que então dirigia e da sua vocação de esportista. Tempos depois, morreria abruptamente.
A partir daquele agradável e fecundo encontro, estando em São Paulo nunca deixei de hospedar-me no Jaraguá. Ao longo de vários anos, sobretudo no seu agradável bar, vi o desfilar da história recente do país. Uma noite assisti a longa tertúlia de Carlos Lacerda com o ex-deputado Padre Godinho. Estava nascendo ali, talvez, o que viria a ser o livro memorialista de Lacerda A Casa do meu Avô.
Em 1972, o jornalista Sebastião Nery estava sendo julgado e enquadrado na Lei de Segurança Nacional, em processo movido pelo então embaixador de Portugal no Brasil, Manoel Fragoso. O crime de Nery: na sua coluna na Tribuna da Imprensa, afirmara que a ditadura salazarista de Marcelo Caetano seria derrubada em breve. O inusitado processo movido pelo embaixador português encontrara apoio do governo Médici. Por acaso, naquela semana estava no Rio com o meu carro. Retornaria em seguida para Londrina. Resolvi convidar o Nery para vir para o Paraná, diante da eminente condenação.
Saímos do Rio, eu, Nery e minha mulher. Em São Paulo a viagem foi interrompida. Resolveu-se que ali se aguardaria o resultado do julgamento draconiano. O ponto de parada foi o Hotel Jaraguá. No Rio, o advogado Marcelo Cerqueira, defensor de Nery, e o jornalista Hélio Fernandes foram informados da mudança de plano. O amigo José Aparecido de Oliveira, após desenvolver vários contatos nos meios militares no Rio, veio se juntar a nós, no Jaraguá. Dias depois o resultado do julgamento foi 4 a 2 a favor de Nery. Voltei para Londrina e Nery, para o Rio.
Ao longo dos 12 anos em que, como deputado federal, representei o Paraná, a parada na paulicéia era sempre o Jaraguá. E como foi importante para o exercício de um mandato verdadeiramente parlamentar!
Na última semana o Hotel Jaraguá encerrou suas atividades. E o mais irônico: os seus 15 mil metros de área construída foram comprados pelo ex-governador paulista Orestes Quércia, que já era o proprietário do restante do edifício.
Morreu o Jaraguá, que tristeza.


