Hospital universitário - Paulo Roberto Slud Brofman
Hospital universitário
Paulo Roberto Slud Brofman
O Brasil possui aproximadamente 6.400 hospitais, com mais de 500 mil leitos, o que determina 3,2 leitos por 1.000 habitantes. Somente 15% dos hospitais têm mais de 150 leitos e apenas 16% possuem mais especialidades do que as básicas. Os hospitais universitários são classificados em três grupos, de acordo com um convênio entre Ministério da Educação (MEC), Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) e Organização Mundial da Saúde (OMS). O primeiro grupo, chamado de Hospitais Universitários propriamente dito, é aquele de propriedade das universidades, ou tem regime de comodato devidamente registrado. O segundo grupo é dos hospitais-escola, de propriedade de escolas isoladas, e são em número de 20. O terceiro grupo é o dos hospitais-auxiliares de ensino, de alguma forma vinculados às escolas, privadas ou públicos.
Esta não-uniformização cria situações contraditórias em vários hospitais universitários, pois há docentes que não fazem assistência, e existem aqueles que realizam assistência e não docência, rompendo uma característica fundamental destes hospitais, que é o ensino baseado na pesquisa de resultados da assistência que prestam, criando com isto dois corpos clínicos distintos. Isso tem que ser corrigido.
No passado, os hospitais universitários, por ser melhor equipados e preparados, e com melhor qualificação profissional, eram os que atendiam os casos de real complexidade. Hoje, os hospitais privados assumiram a liderança. Um exemplo: em todo o País, a cirurgia cardíaca é realizada em 130 hospitais, dos quais menos de 10% são universitários.
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, criando impactos, problemas e soluções, exige incorporação de equipamentos, materiais e medicamentos muito caros. Tornou-se, por vezes, impossível para os hospitais acompanharem todos os avanços, sobretudo por aqueles que recebem recursos oferecidos por um orçamento prévio ou que dependem excessivamente das verbas do SUS (Sistema Único de Saúde).
Entendo que é preciso recriar o hospital universitário competitivo, retendo os melhores profissionais, dando-lhes condições plenas de trabalho, investindo em humanização e em tecnologia, fazendo com que o hospital seja procurado não apenas por pessoas que não dispõem de outra opção, mas por quem tem a possibilidade de escolher.
Para isso, é fundamental possuir funcionários que exerçam com dedicação plena o seu trabalho, e médicos-docentes com o seu destino ligado ao plano estratégico da instituição. É preciso que o título universitário e o seu prestígio sejam empregados para fortalecer o hospital, trazendo com isso pessoas da sociedade capazes de somar e ajudar a solucionar obstáculos.
O hospital tem que ser equipado com o que há de mais moderno, porque, se assim não for, as pessoas não o procuram. Esses equipamentos passarão a ser utilizados não só por aqueles que podem pagar, mas por todos os que precisam da assistência médica e hospitalar.
O hospital universitário também tem a responsabilidade de gerar, discutir e adaptar conhecimentos, isto é, desenvolver investigação e pesquisa. Mas se este hospital não possui fontes e recursos nem para fazer assistência, como vai desenvolver pesquisa? E se ele não a fizer, quem é que vai realizá-la no País?
Certo é que não se pode oferecer pobreza de atendimento. Um hospital universitário precisa oferecer o melhor atendimento que existe, pois, com ou sem recursos, toda pessoa possui os mesmos direitos na manutenção de sua saúde.
Um médico docente que trabalha em um hospital universitário é uma liderança e, como líder, é responsável por criar soluções, oferecer propostas e modificar as situações existentes. Ele tem a responsabilidade de ensinar ao aluno que, às vezes, passar a mão no rosto de um paciente e ouvir seus problemas pessoais e familiares podem ser atitudes simples, todavia importantes para a sua recuperação.
Por isso, deve-se restabelecer o vínculo médico-doente, recuperar o sentido de responsabilidade que implica a profissão e evitar utilizar o que não precisa ser usado. Porém, só consegue otimizar a utilização de recursos materiais e tecnológicos quem conhece e possui competência.
- PAULO ROBERTO SLUD BROFMAN é diretor-superintendente do Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba





