Em seminário promovido em Curitiba pela Federação das Unimeds do Paraná, o prof. Afonso José de Matos, de São Paulo, asseverou que existem incoerências no pagamento de contas hospitalares que oneram sobremaneira o usuário final. A informação, contudo, é no mínimo precipitada, para não dizer tendenciosa. Embora admirador do trabalho do prof. Afonso, tendo inclusive participado com ele de vários estudos ligados a custos hospitalares, é de estranhar a posição tomada e os dados que apresentou através dos meios de comunicação.
Afirmar que os hospitais cobram valores abusivos dos convênios é desconhecimento dos custos e indução do usuário à informação falsa. Mesmo com os valores hoje praticados, é só pesquisar na rede bancária o endividamento dos hospitais. Ao mesmo tempo, é de se verificar se existe algum plano de saúde ‘‘no vermelho’’.
Dentre os dados do professor a ser contestado está a ‘‘abusividade dos preços dos materiais e medicamentos’’. Como se o avanço dos preços fosse culpa dos hospitais. Nenhum dos estabelecimentos altera ou fixa os valores, que são sugeridos através do Brasíndice, edição que explicita o preço de fábrica e o máxino ao consumidor. A margem de comercialização de 42,86% é erroneamente entendida como ‘‘lucro’’ do hospital. Ignora-se que sobre o valor faturado a empresa recolhe inúmeros impostos e taxas, como ISS, Cofins, PIS, IR, Contribuição Social sobre o Lucro, dentre outros, que somam 11,25%. Salários, encargos, luz, água, telefone e outros custos fixos chegam perto de 15% do valor dos produtos.
Em tais patamares, o que sobra é da ordem de 15% do valor dos produtos, extremamente morais à realidade brasileira e muito distantes dos 42,86% iniciais. É muito diferente o medicamento ministrado em hospital do mesmo produto comprado em farmácias. A responsabilidade da farmácia convencional termina na venda, enquanto a do hospital começa na aplicação do produto, com riscos imaginários nas esferas cíveis e criminais.
Além dos materiais e medicamentos, temos o item das diárias, que são pagas na ordem de R$ 45,00 na enfermaria e perto de R$ 100,00 nos apartamentos. Valores que compreendem troca diária de roupa de cama, cinco refeições diárias, atendimento de enfermagem 24 horas por dia (incluindo a aplicação de medicamentos), médico plantonista igualmente 24 horas e, via de regra, acomodação e alimentação para acompanhante. Valores semelhantes a um hotel cinco estrelas onde, excentuando-se a cama, tudo é cobrado como extra, sem considerar que o hóspede, ao contrário do paciente, apenas dorme no hotel, ficando fora a maior parte do tempo.
No tocante ao uso de equipamentos, mais um equívoco do prof. Afonso. Querer esperar regras simples do mercado financeiro na atividade hospitalar é não conhecer o dia-a-dia destes estabelecimentos. Imputar vida útil de cinco anos a cada aparelho, indistintamente, é comparar um tomógrafo a um colchão d’água; enquanto o desgaste de um pode ser mensurado a longo prazo, o outro está sujeito a furar no primeiro uso. Um hospital tem que ter incubadoras em número superior ao uso habitual, como se fossem autênticos estepes, prontos a substituir o titular em caso de avaria. E o custo destes estepes tem que estar alocado a cada uso do aparelho, de forma suplementar, para sustentar sua aquisição e sua manutenção. Isso tudo sem se falar na obsolência planejada dos fabricantes e no advento de novas tecnologias, exigidas tanto pelos profissionais como pelos próprios usuários.
Contudo, há de se concordar totalmente com o Prof. Afonso quando ele coloca a negociação como parte fundamental. Logicamente que hospitais e convênios têm que se sentar à mesa e consensar alternativas. Ninguém é dono absoluto da verdade. O que não se pode admitir é que alguns técnicos burocráticos destes mesmos convênios, sem nunca ter participado do dia-a-dia de um hospital, via de regra recém-formados e ávidos por mostrar serviço a seus contratados, venham tratar nossas empresas como cobaias e, laboratorialmente, teorizar para impor condições aviltantes aos hospitais.
Afinal, não somos meras oficinas destes convênios, mas sim vendedores de serviços que estes, mediante intermediação, oferecem à população. No afã de reduzir seus custos e serem mais competitivos, não hesitam em tornar-nos seus principais alvos, sem conhecer nossa realidade.
Enquanto alguns - invariavelmente os maiores - traçam estratégias para aumentar seus lucros ou suas sobras de R$ 5 milhões para algo em torno de R$ 11 milhões/ano e, assim por diante, anualmente, nós hospitais nos vemos a cada mês renegociando ‘‘papagaios’’ com gerentes de bancos ou atrasando compromissos e pagando por isso juros elevadíssimos do mercado. E ainda somos nós a praticar preços abusivos? É só ir ao Procon e ver quantas reclamações existem contra hospitais e quantas existem contra planos de saúde.
Sem reajuste em seus preços para convênios desde abril de 1997 - há dois anos, portanto - os hospitais do Paraná e mais especificamente os de Curitiba constituíram o Fórum Paranaense de Hospitais, que tem o objetivo de se precaver contra qualquer tipo de imposição que venha dos convênios, sobretudo quando alguns deles se unem para tentar ditar regras e preços.
Tal iniciativa visa unicamente a preservar o equilíbrio econômico-financeiro dos hospitais e impedir qualquer ação que possa resultar em redução da qualidade dos serviços prestados. A principal preocupação é com os nossos pacientes e não nos permitiremos qualquer artifício que os prejudique no tocante à qualidade. Nem que tenhamos que rescindir nossos contratos com estes convênios e voltar a atender nossos pacientes pelo Sistema Único de Saúde. É melhor nos curvarmos ao governo em favor da população carente do que aos poderosos que, às nossas custas, aumentam seu patrimônio absurdamente. Negociação, sim, pois sempre foi nossa premissa. Mas imposição não vamos mais aceitar.
- MIGUEL JORGE ROSA NETO é administrador de empresas e superintendente da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Servicos de Saúde no Paraná (Fehospar).

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