O horário gratuito da propaganda política no rádio e na televisão deveria, a princípio, passar mensagens sérias e consistentes, apresentar soluções para problemas, sintetizar didaticamente as idéias dos candidatos. No tocante a candidatos à presidência da República, porém, até agora somente o programa do presidente e candidato Fernando Henrique Cardoso conseguiu reunir esses aspectos e, ao mesmo tempo, tocar a sensibilidade de ouvintes e telespectadores.
O programa é extremamente bem-feito, e através dele Fernando Henrique não alardeia, não promete o impossível, não fica criticando os adversários. Ao mesmo tempo, passa uma imagem de transparência, autenticidade e sensatez. Por isto, não é só mais um tempo que o presidente-candidato tem. Seu programa apresenta criatividade, boa imagem e, principalmente, é o único que possui conteúdo. Afinal, o presidente tem quatro anos de realizações para mostrar.
Entretanto, denotando sinceridade ele expõe que seria impossível realizar nesse período tudo a que se propôs na eleição passada. Explica, contudo, que a estabilidade da economia obtida com o fim da inflação é a base para que possa realizar suas outras propostas. E esta estabilidade, que obteve com grande êxito, não precisa provar porque a realidade fala por ele.
Sobre problemas como o desemprego, o presidente pede mais quatro anos para equacioná-los. E explica com a didática do professor que nesse tempo tentará alcançar suas outras metas. Pelas pesquisas realizadas até agora, parece que o povo continua confiando nele.
O programa do candidato do PT continua um programa do PT: perde minutos preciosos com tomadas de comícios e outras imagens desnecessárias, copia programas globais como o do Faustão e, para variar, critica o único opositor de verdade, ou seja, Fernando Henrique Cardoso, o amigo de outrora.
Evidentemente, houve um bom remanejamento na imagem de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele está suavizado em cores e sons. Apresenta-se com expressão amena e palavreado bem mais macio do que seu habitual discurso gutural. Vestido como convém com ternos impecáveis, camisas claras, gravatas elegantes, faz pose de bem comportado. Além do mais, apresenta bom desempenho teatral, chegando até a lacrimejar.
Nitidamente, Lula tenta ganhar os frios eleitores dessa campanha através da emoção. Entretanto, os jornais vêm anunciando que com o passar dos dias as costumeiras críticas petistas crescerão em veemência. Esperemos para ver. Se tal ocorrer, pode ser que o PT colha o inverso do esperado junto aos eleitores de resultados, ou seja, a maioria. Esses só querem saber de coisas reais. E como ensinou o mestre da política Nicolau Maquiavel em ‘‘O Príncipe’’: ‘‘Quem despreza o que se faz pelo que deveria ser feito aprenderá a provocar sua própria ruína, e não a defender-se’’.
Além dos dois candidatos à Presidência para valer, mais dez desfilam por rádios e televisões. A maioria deles parece ter como único propósito se exibir pública e vaidosamente em busca de uma fugaz glória. De tal modo oscilam entre o grotesto e o ridículo durante curtos minutos que parecem intermináveis, protagonizando festivais de besteira intercalados por mentiras, que as cenas apresentadas lembram mais um manicômio do que um programa eleitoral.
A figura já tradicional é a de Enéas, indefectível candidato do Prona à presidência da República. Com barba anormalmente grande para sua estatura, talvez uma compensação para a calva, Dr. Enéas apresenta um programinha literalmente bombástico. Com a fúria alucinada de um Hitler subdesenvolvido, ele clama pela bomba atômica. É algo entre o patético e o hilário, e sem dúvida lembra um genial filme que passou há muitos anos: ‘‘De como aprendi a amar a bomba atômica’’.
Mas Enéas está em boa companhia em termos de candidatos nanicos. Tem um tal de Eymael, do PSDC, que faz o tipo fraco abusado, apresentando-se sem mais aquela como ‘‘o único que pode vencer Fernando Henrique’’. Aparece também o João de Deus, do PTdoB, que se anuncia como emissário de Getúlio Vargas, não se sabe bem por quê. E o PTN, que exibe uma solitária mulher entre os candidatos à Presidência, não foi feliz no seu primeiro programa. Neste, a candidata foi apenas apresentada pelo presidente do seu obscuro partido, permanecendo muda. Parecia fazer o papel da ‘‘loura burra’’ da música. Agora, felizmente, aprendeu a falar.
E por aí vai. Mesmo Ciro Gomes, que com sua experiência política consegue ser mais articulado do que os outros nanicos, não convence. Apenas critica Fernando Henrique. Zé Maria de Almeida, do PSTU, faz o gênero xiíta. Bate firme em FHC, faz promessas impossíveis de ser cumpridas e ataca com seu slogan do paleolítico e de péssima rima: ‘‘Contra burguês, vote 16’’. Faz-lhe companhia neste telecirco político, Sirkis, do PV, e outros mais, unidos na cantilena contra Fernando Henrique e o neoliberalismo.
Portanto, não é por acaso que o eleitorado de modo geral desliga a TV ou muda de canal com um gesto entediado. Mais maduro, o eleitor sabe que vai tudo bem. O resto é conversa fiada, coisas do circo eletrônico.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga em Londrina

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