Acontece com o Estado o mesmo que com as pessoas. Quando gastam mais do que ganham, entram no vermelho. Aí, têm que encontrar saídas para tapar o rombo. Uma é ganhar mais. Outra, gastar menos. Podem, ainda, pedir emprestado. Ou combinar todas elas. Recorrer essencialmente a empréstimos é decisão perigosa. Exige controle. Sem freio, a conta vai aumentando. O cliente torna-se de alto risco. O medo do calote cresce. O dinheiro fica mais - muito mais - caro. Os juros sufocam.
Se uma pessoa não pagar as dívidas, fica inadimplente. Acaba dando cheque sem fundo. O nome dela vai para o SPC. O banco fecha-lhe a conta. Manda-lhe o nome para o cadastro do Banco Central. Aí, nenhuma outra instituição financeira lhe abre as portas. O cartão de crédito vai para a lista negra. Os credores recorrem à Justiça.
Com o Estado a coisa não é diferente. Os investidores utilizam-se de determinados parâmetros - déficit fiscal, nível de endividamento interno e externo, saldo em balanço de pagamentos - para avaliar o grau de perigo que correm os empréstimos e, até, os investimentos de risco.
Quando tais indicadores estão fora dos limites aceitos pelo mercado, há evasão de divisas, os financiamentos ficam mais difíceis, os juros sobem (para atrair o capital amedrontado). Em caso extremo, até as linhas de crédito são suspensas.
O Brasil está numa situação de fronteira. Suas reservas giram em torno de R$ 45 bilhões. Sem o ajuste fiscal, a tendência seria a degradação dos saldos cambiais. Perdendo de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão por dia, o País poderia chegar à insolvência internacional. Resolução do Senado determina que as reservas devem ser suficientes para cobrir quatro meses de importação. Em valores de hoje, oscilariam em torno de R$ 25 bilhões. Abaixo disso, deflagrar-se-ia uma crise cambial.
E daí? A coisa ficaria ruim. As reservas remanescentes cairiam rapidamente sobretudo pelo fluxo para o exterior dos dólares existentes. Poder-se-ia chegar ao ponto em que faltaria moeda estrangeira para pagar as importações. Valem exemplos. A Petrobras teria dificuldade de comprar petróleo lá fora. O impacto seria dramático. Afetaria o fornecimento, de um lado, de combustível para transporte e, de outro, de componentes da indústria petroquímica (fertilizantes, plástico, asfalto, emulsões para tinta, produtos químicos). O setor secundário entraria em crise. As indústrias eletroeletrônica e farmacêutica estariam impedidas de importar insumos. E por aí vai. Nem os setores de diversão e turismo ficariam de fora.
O apocalipse interessa às grandes potências? Não. Geraria crise sobretudo nos Estados Unidos e na União Européia, grandes fornecedores e credores do Brasil. O Brasil, pois, será socorrido qualquer que seja a política de ajuste adotada. A proposta do governo tem cunho exclusivamente fiscal e monetarista. Não prevê mudança no modelo econômico.
Por isso, é hora de baixar o caboclo humildade no terreiro do Planalto. Ouvir a voz da oposição e dos críticos. E, sem abandonar os cortes orçamentários e algumas correções nos impostos, incentivar a produção agrícola e a construção civil, taxar as importações, pôr freios na gastança sem limites na Disney. Tais medidas aliviam o balanço de pagamentos e impulsionam a economia interna, estimulando o consumo e reduzindo o desemprego.
- DAD SQUARISI é jornalista em Brasília

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