Deu na Time: as rãs estão desaparecendo, e só quem se alarma são os poetas. É indício da nossa global impotência, que um fenômeno dessa magnitude passe quase despercebido. Participei de um debate sobre direitos humanos - cujo cinquentenário se celebra neste 10 de dezembro - e pensei no que aconteceria se houvesse um pacto entre animais para assegurar para si algum tipo de direito. Parece que há uma convivência razoavelmente pacífica entre eles, mesmo entre espécies diversas convivendo num mesmo território. As crises são determinadas por fatores externos que levam ao predomínio dos fisicamente mais capazes.
Como os humanos foram a única espécie a redigir um pacto para assegurar direitos, isso pode ter sido feito para proteger as atividades dos mais fracos. O que tem um certo sentido, se considerarmos que algumas das maiores conquistas do homem, como as artes e as ciências, são produto do seu trabalho mental - e não físico.
A reflexão pode fazer com que se aceite o fato do pacto sobre DH, mas não encerra a questão. Ao contrário, leva à constatação de uma extraordinária arrogância antropomorfista - em especial nos direitos ‘‘sociais’’ - que tratam o planeta como se fosse um produto e que só os homens tivessem o ‘‘direito’’ de consumi-lo. ‘‘Le Monde Diplomatique’’ publicou, na edição de novembro, que as três pessoas mais ricas do mundo têm fortuna superior à soma dos Produtos Internos Brutos dos 48 países mais pobres.
Embora importante, a discussão sobre a cinquentenária Declaração Universal chega a parecer irrelevante, em vista da verdade maior de que nós, humanos, estamos organizados, de forma absurda, em Estados nacionais opressores das minorias e predatórios do ambiente, cuja manutenção só interessa às pessoas que, além daquelas três mencionadas, ao longo da história, puderam apossar-se do que não lhes poderia pertencer.
Também, por pertencer a uma geração que ainda aprendeu a maior parte de suas lições em livros, gostaria de mencionar dois. O primeiro é Growing Up Absurd, de Paul Goodman, publicado pela primeira vez em 1956 e que li em 1959. Tinha 18 anos e a cabeça feita, no Brasil, pelos livros infantis de Monteiro Lobato - que não tinham nada equivalente, nem lá na América, nem no resto do mundo.
Algumas das preocupações de Goodman eram de interesse restrito; mas, para os anos 50, ele tinha uma mensagem rara e ousada: os adultos nem sempre têm razão. De fato, neste mundo contemporâneo - acusava Goodman - os adultos quase nunca têm razão - e o mundo para o qual nos estão preparando, ou ‘‘educando’’, é - simplesmente - absurdo. Os jovens que aceitarem como verdadeiras as idéias que os mais velhos querem lhes passar, vão-se tornar eles também absurdos.
O outro livro é mais antigo, mas também travei contato com ele em 59. Trata-se de Progress and Poverty, do tipógrafo auto-didata americano que se transformou em economista, Henry George. George é lembrado, ainda hoje, de vez em quando, como o homem que inventou o Imposto Único - não este IPMF indecente - mas o verdadeiro, que só incidia sobre um bem: a terra. Todos que usam a terra, propunha HG, devem pagar imposto sobre ela; e quanto mais valorizado seja o seu pedaço de terra, por construções, edifícios ou fábricas, mais taxas deverá pagar à comunidade, através do governo.
‘‘Como se pode dizer de um homem’’, escrevia, ‘‘que tem a ‘‘sua’’ terra, se ele não tem direito a uma só polegada dela?’’. Esta era, para George, a maior injustiça de todas. Se a disponibilidade de terras no mundo era rigorosamente finita, por que alguns seres humanos teriam direito sobre ela e outros não? E mais, por que esse direito era fundamentado única e exclusivamente no fato de terem nascido antes dos outros? A partir do momento em que toda terra produtiva das principais nações do mundo havia sido ocupada pelas gerações precedentes, se você não tivesse a sorte de nascer herdeiro de proprietário de terras, isso significa que já nascia com as cartas marcadas contra você.
Quarenta anos, duas graduações e um doutorado depois - além de experiências instrutivas com meus semelhantes - não fizeram com que eu tivesse de alterar nada do que aprendi desses dois livros. Direitos Humanos? Sim - sempre - melhor tê-los do que não os ter. Mas, se crescemos absurdos e prosperamos na injustiça, para chegar a qualquer tipo de igualdade de direitos - ou mesmo para sobreviver, como espécie, a médio e longo prazo - temos, no mínimo, de refazer o mundo.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, do Rio de Janeiro

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