Hora de mudanças - Editorial
Hora de mudanças
Às vésperas de um novo milênio, o Banco Mundial (Bird) divulga um estudo sobre a situação do desenvolvimento econômico no planeta e chega a uma dura conclusão: a miséria aumenta em todo o mundo e as perspectivas são de que a distância entre ricos e pobres, que já é grande, vai se tornar cada vez maior. Em relação ao Brasil, a análise do Bird, contida em seu 22º Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, também não é das mais otimistas, indicando que o país vem sofrendo as consequências da desastrosa Constituição de 1988. Não é, portanto, a opinião de algum governante que queira forçar mudanças, mas a visão de alguém de fora que percebe os danosos efeitos de uma tendência absurda sobre o alcance das leis, contida em muitos pontos da Carta aprovada em 88 pela Assembléia Constituinte. Aquilo tudo que sucessivos governantes têm questionado a respeito das excessivas benesses contidas na Constituição, sem a preocupação em relação às possibilidades de o Estado realizar tudo o que os constituintes queriam, é o que ressalta da análise do Bird sobre a situação brasileira.
De modo geral, o estudo mostra uma projeção negativa, tanto em relação ao Brasil como ao mundo. Atualmente, um quarto da população do planeta está na faixa da miséria. Este total, de acordo com o estudo, vai subir, devendo chegar a um terço da humanidade dentro de pouco mais de 15 anos. Trata-se, sem dúvida, de uma projeção pessimista e até certo ponto assustadora. Mais grave ainda é perceber que toda ela se baseia em fatos reais, indicando mesmo uma quase impossibilidade de reversão. Todavia, e mesmo sem pretender adotar uma postura falsamente otimista, não se pode deixar de insistir em que a futurologia não é uma ciência. Sem dúvida, usando-se os dados existentes e projetando-os para o futuro, diante de uma situação negativa como esta que o mundo atravessa, só se pode chegar a conclusões tenebrosas.
O fundamental neste relatório é a realidade que apresenta. Aquilo que pode vir a acontecer nos próximos anos, não necessita ser precisamente o que o trabalho prevê. O que é necessário é que a partir dos dados apresentados haja uma conscientização a respeito da realidade e sobre as mudanças que devem ser adotadas já para evitar um futuro tão sombrio. No caso brasileiro, desde a implantação do plano de estabilização existe não apenas a consciência mas o compromisso de se modificar as estruturas (o que inclui profundas reformas na Constituição) para evitar que as projeções mais pessimistas se concretizem. Não é um trabalho fácil, como se tem notado. Durante todo o primeiro mandato, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso lutou para conseguir ver aprovadas as reformas, o que ainda não se concretizou. É muito forte a oposição, não apenas entre os adversários políticos, mas também em meio aos aliados do Planalto, até porque persiste entre nós aquela postura demagógica e paternalista que deu origem à própria Constituição.
O ser humano, individual e coletivamente, tem receio de mudanças. Muitas vezes vive em situação difícil, mas teme que eventuais alterações possam tornar piores as coisas. Este medo, que é alimentado pelos demagogo-paternalistas dificulta modificações, ainda que estas sejam necessárias e até imprescindíveis. O grande desafio, porém, é este: o de assumir e enfrentar as mudanças, sem o que as mais negativas previsões acabarão se convertendo em realidade. O futuro assustador que o relatório do Bird aponta não foi escrito. Pode ser modificado se houver coragem para se enfrentar com celeridade as transformações que o Brasil reclama.





