Na epopéia do Lago Igapó-2 uma batalha foi vencida, mas a guerra ainda não. Porque agora temos que ficar atentos para ver o que o Poder Público quererá fazer com o aterro. Tenho defendido a fórmula de retirar aqueles entulhos, porque aceitá-los será concordar com o crime ecológico cometido por quem os colocou lá. O prefeito Antonio Belinati manifestou a vontade de transformar o local em ‘‘parque ecológico’’, mas parque ecológico já é... O que será esse projeto teremos de saber, e espera-se que seja submetido à avaliação e aprovação da comunidade. A fórmula simples, que agradaria a todos, seria restabelecer a volta das águas, fazendo o lago sepulto voltar ao que era.
A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente chegou a aludir ao recurso legal de exigir indenização de quem aterrou o lago. Em outras palavras: quem jogou aqueles entulhos lá, que os retire. Nada mais justo. A desobstrução poderia ser feita por dragagem, e em poucos meses voltaríamos a ouvir o murmúrio das águas.
Idéias de arborização, trilhas para caminhadas, campos esportivos, tudo isto é excelente mas pode ser implantado nas margens. Porque nada substituirá as águas. Com o aterro, o conjunto de lagos perdeu continuidade. Ademais, a Prefeitura tem se mostrado péssima administradora de praças, jardins, gramados, canchas de esportes, sanitários públicos, parquinhos. Veja-se as quadras e sanitários do Zerão; o estado externo do Anfiteatro dali; da trilha e dos sanitários da margem pública do Igapó; do Bosque central, sua quadra de esporte, seu parquinho e seu (anti) sanitário, por que aquilo é o retrato do mau cheiro, do desconforto, do abandono. O brasileiro veio aceitando esses padrões, mas tem coisa melhor!
O prefeito não levaria o seu neto para brincar no parquinho do Bosque. Então, se algo não é bom para o neto do prefeito, não é bom para os outros netos...
E aproveitando o embalo, sugerimos ao prefeito que, daqui para diante, dedique atenção também ao embelezamento da cidade. Sim, as pessoas querem que venham indústrias (naturalmente que não sejam poluentes), querem empregos, mas querem também viver em ambiente de conforto e beleza. Gastar com beleza urbana não é supérfluo, porque a cidade são as pessoas, e as pessoas apreciam o belo, identificam-se com o belo. Londrina é boa de se viver mas pode ficar infinitamente melhor.
É hora de a Prefeitura proceder a uma varredura geral, revitalizando o Calçadão e estendendo-o mais, até onde for possível; recuperar as calçadas (ou obrigar os responsáveis por elas que o façam), porque elas estão feias e intrafegáveis pelos pedestres, de tão irregulares; plantar árvores nas ruas onde elas ainda não existem e substituir as árvores velhas e já insustentáveis; recuperar o abandonado Bosque central, um lugar tão bonito mas tão mal amado pelo Poder Público; obrigar que velhos edifícios (altos e baixos) sejam restaurados e repintados, cobrando IPTU mais caro dos relapsos e concedendo benefícios aos zelosos; disciplinar a implantação dos tapumes, nas construções, para que não invadam a calçada nem façam dela depósito de tijolos; instalar semáforos modernos e sincronizados, também permitindo que os pedestres tenham a sua vez de atravessar a rua (em Londrina os sinaleiros nunca contemplam o pedestre, deixando supor que a máquina vale mais que o homem); iluminar as ruas escuras e centralizar as luminárias para que não fiquem sob as copas das árvores, e portanto quase sem função; melhorar o sistemas de tráfego, com novas estratégias de fluxo e estacionamento; e, ao invés de doar praças para particulares, entidades, igrejas, que o Poder Público passe a fazer exatamente o contrário: compre áreas para implantar mais praças. Isto seria inédito no Brasil. Não é preciso ser o quarteirão inteiro. Um terreno baldio entre dois edifícios poder servir como uma minipraça, que seria um ponto de encontro, com árvores, gramados, flores, bancos. Um lugar sobretudo para as crianças que habitam apartamentos e não têm espaços para brincar. Esses pontos, espalhados por toda a cidade, seriam verdadeiros pulmões verdes e tornariam a vida urbana muito mais agradável. A própria comunidade se encarregaria de cuidar dessas praças, como já acontece com os canteiros.
É bom que o Poder Público traga para cá grandes fábricas e serviços, mas ele não pode descuidar da humanização da cidade.
Não é a simples doação de um terreno que atrai indústrias para cá, mas é o mercado, a estratégia de localização e a infra-estrutura que a cidade tem. Uma fábrica não chega sozinha, mas chega com diretores, técnicos, funcionários, e suas famílias. Eles e suas mulheres e filhos querem uma cidade com todos os recursos que a modernidade oferece, que seja boa de se viver, que seja bela e festiva.
Londrina, felizmente, já tem muito dessa infra-estrutura. Só falta uma boa maquiagem.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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