Os bancos não têm o direito de nos cobrar juros extorsivos de até 13% ao mês, quando a inflação de um ano inteiro, hoje, é metade disto, e quando o próprio sistema nos paga apenas 1% pela poupança e 1,5% por outras aplicações. Temos duas moedas: a nossa, que dentro do banco não vale nada, e a dos bancos, que vale ouro. Os comerciantes, também eles, entraram na onda especuladora dos bancos e passaram a cobrar juros embutidos de até 7% ao mês nas vendas a prazo.
Agora que o governo lança o ajuste fiscal (um ‘‘ajuste’’ que é sempre para cima), é chegada a hora de também fazermos um ajuste do que devemos. Só que vamos fazer o inverso: um ‘‘ajuste’’ para baixo. Não temos nenhuma obrigação de pagar esses juros. Se algo é imoral não pode ser legal. Esses antipatriotas têm que se contentar com o mínimo, ou seja, a dívida primária e o mesmo juro da aplicação financeira.
Algo está errado neste Brasil se somos obrigados, pela ditadura dos bancos - e por orientação do governo - a pagar-lhes esses juros exorbitantes. Também não temos que alimentar essa falta de visão empresarial dos comerciantes, que já não querem fazer vendas, mas, através delas - e desvirtuando seu ofício - transformar-se em banqueiros...
Como vamos agir? Deixando de comprar a prazo e exigindo descontos substanciais à vista; não usar cheque especial; evitar empréstimos em banco; e não pagar o que não é devido.
Uma instituição apta a iniciar essa ‘‘reforma’’ é a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que tão relevantes serviços prestou, pelas causas da pátria, nos tempos recentes do autoritarismo - e as Promotorias de Justiça.
Se o governo não faz, fazemos nós! Não será preciso tumultuar a paz pública. Bastará que um juiz ousado conceda liminar, ante uma simples ação popular, para levantar a questão a nível nacional. Do Congresso e do Planalto pouco ou nada se espera. Resta-nos o poder da Justiça. Antes que se manifestem outros poderes não muito convencionais...
Ou nos salvamos todos ou vamos à bancarrota. O novo Brasil não será edificado pelos governos, mas pelos brasileiros. E se começarmos aqui em baixo a proferir este brado de recusa forçaremos os bancos a renegociar. É chegada a hora de darmos um basta a tanta exploração. O que estão fazendo conosco é estelionato.
As grandes reformas se fazem também com grandes gestos de coragem. Estamos vivendo hoje a ditadura do capital especulativo, representado por esses juros extorsivos - um verdadeiro assalto aos cidadãos. O presidente reeleito diz em seus discursos que não quer os dólares especulativos, mas os protege, e é por protegê-los que não permite mudança nas regras do seu Real para quem está endividado nos bancos ou tem que recorrer a eles. E os bancos são o único lugar onde o dinheiro é hoje encontrável.
Se punimos o assaltante do banco e da loja, por que não punimos o banco e a loja que nos assaltam?!
Que as defensorias públicas se alevantem, porque o governo teima em afirmar que não vai mexer na política de juros. Se ele não mexe, mexemos nós! Os bancos, com a permissividade do governo, estão descapitalizando e quebrando empresas, e as que se salvaram passaram a usar idêntico expediente com os compradores, criando uma legião de inadimplentes. Esqueceram-se, também os lojistas, de que são comerciantes e não agiotas.
Sim, vivemos uma era de globalização, quando crises mundiais atingem a todos, mas a verdade é que impera no Brasil algo atípico, não encontrável em país nenhum do mundo. Ou seja, uma inflação de 0,5% ao mês (metade de 1%), e os bancos, manipuladores da maior parte da moeda circulante, cobrando juros que chegam a patamares de 13% ao mês. Justificando o quê? Nada. Os bancos, sempre socorridos pelo governo, não conhecem crises e não se preocupam se irão quebrar mais uma empresa ou um cliente pessoa física.
Bancos são muito úteis quando semeiam desenvolvimento, através de empréstimos a juros baixos, como acontece nos Estados Unidos, Europa e países desenvolvidos da Ásia, mas no Brasil o banco é o algoz, o sanguessuga, o inimigo da Pátria.
Nós não queremos este tipo de banco nem este tipo de comerciante inescrupuloso. Nós queremos bancos que nos emprestem dinheiro pelo custo do que nos pagam pela poupança. Não é o mesmo dinheiro?!
Por isso temos dito que o Brasil não é um país democrático. Nos pensamos democráticos só porque elegemos nossos governantes e podemos manifestar publicamente nossas opiniões. Mas democracia não é apenas isto. Democracia é também partipação igualitária na riqueza nacional. Se é verdade que vivemos uma democracia política, não vivemos uma democracia econômica. Vivemos, sim, esta ditadura dos juros assassinos, que nos aniquilam e nos atormentam, levando os brasileiros à desesperança.
Já passa da hora de refazermos nossas contas. Conheço gente em Londrina que devia R$ 10 mil em banco, dois anos atrás, e agora viu esse valor subir para mais de R$ 30 mil com o acréscimo dos juros. A poupança lhe teria rendido R$ 3 mil. Então sua dívida é de R$ 13 mil e não de R$ 30 mil.
Chegou a hora de o devedor estabelecer quanto deve, não o credor.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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