Hora de agradecer
Há momentos na vida em que um homem deve ser intolerante e até impertinente. São dias de ira, em que a injustiça e a iniquidade por terem escarificado o probo, justificam ações que não podem esperar. Mas, há momentos em que a tolerância é a cristalina tradução de um reconhecimento. E, esta é a hora de agradecer.
Estou deixando a Autarquia do Meio Ambiente (AMA), após 14 meses de trabalho. Maculada, depois dos escândalos que todos conhecem, encontrei a autarquia como um poço de desânimo, lamentações e ineficiência. Motosserras desaparecidas; veículos misteriosamente incendiados; máquinas com o tanque de combustível cheios de areia; mais de 3 mil pedidos de munícipes engavetados; solicitações desde há quatro anos sem respostas e dezenas de outros descalabros que custaria enumerar. A AMA havia perdido servidores, que demitiram-se sumariamente. Perdido técnicos que, por vergonha de sustentarem seu nome, transferiram-se. Perdido projetos pagos com recursos dos cidadãos, que de lá simplesmente sumiram. Enfim, perdido a dignidade e a autoridade que todo órgão público deve ter. E, o município, perdido sua política ambiental.
Não fui para lá desavisado. Sabia o que me esperava e, ao convidar-me, o prefeito confirmou: você não terá dinheiro para implantar nada, no primeiro ano; não posso lhe repassar o ICMS ecológico, tampouco os recursos do Fundo Municipal de Meio Ambiente, nem qualquer recurso para investimento. Além disso, a coleta de lixo e entulhos, a varrição pública, a capina e a roçagem deixarão de serem atribuições da AMA para tornarem-se obrigações da CMTU.
Se neste pouco mais de um ano, sem dispor de um centavo do Fundo Municipal de Meio Ambiente, do ICMS ecológico ou de qualquer recurso público para investimentos, a AMA voltou a cumprir o papel para a qual fora criada. Isso se deve a muita gente que, anonimamente, ajudou a autarquia. É para estes muitos que externo meus agradecimentos.
Agradeço aos empresários que, com seus recursos garantiram a 1ª Conferência Municipal de Meio Ambiente, evento que reuniu mais de 2 mil pessoas e iniciou a implantação da Agenda 21 de Londrina. Agradeço a centenas de líderes comunitários e anônimas donas-de-casa, estudantes, professores, trabalhadores e aposentados que participam do Conselho Municipal de Meio Ambiente.
Agradeço aos funcionários da AMA, demais funcionários públicos, secretários municipais e vereadores que entenderam a necessidade de se manter (ainda que com outro nome) a autarquia. Agradeço a ONGs como Patrulha das Águas, Appemma, CDH, A Missão, aos integrantes do Salvo Serviço Ambiental Voluntário, ao IAP, Ibama, Corpo de Bombeiros, Polícia Florestal, Polícia Militar, Polícia Técnica, e a diretores e docentes da UEL, Unopar e Unifil.
Agradeço à imprensa profissional que divulgou com fidelidade projetos extraordinários como: 1 milhão de árvores para Londrina, a recuperação de 50% das nascentes da área urbana, a construção do centro de visitantes no Parque Arthur Thomas e a recuperação de suas trilhas, o projeto Casa Verde, a volta de serviços essenciais como a erradicação de cupins, apreensão de animais da malha urbana e a coibição de milhares de infrações ambientais.
Agradeço à Promotoria Pública de Meio Ambiente, parceira fundamental deste trabalho. E, finalmente, agradeço ao prefeito Nedson Micheleti, amigo de longas jornadas, a oportunidade que tive de reativar um órgão público essencial que, juntos, criamos.
A AMA recomeça sua caminhada. Muito ainda há por se fazer. Deixo este trabalho, agradecido e com a certeza de que, mesmo em tão pouco tempo, honrei meus compromissos. E, saio, apenas para cumprir a legislação eleitoral. Entretanto, cá de fora, serei um dos tantos que continuará ajudando a preservar a AMA e o saudável ambiente que nos faz tão bem. Obrigado.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é ex-secretário do Ambiente de Londrina





