Honestamente, uma linda cidade
Luiz Eduardo Cheida
Ouvi falar de uma cidade, em que as pessoas, que se interessavam em participar, formaram um conselho e, com a contabilidade dos recursos públicos em mãos decidiam, em assembléias, onde aplicar seus impostos. Juntas, escolhiam obras e serviços, montavam o orçamento, encaminhavam-no à Câmara Municipal, acompanhavam as votações dos vereadores e, depois, fiscalizavam as concorrências. No dia em que as licitações eram abertas, lá estavam elas, averiguando tudo. Depois, fiscalizavam a execução. Após a inauguração das obras, havia os que sentenciavam:
- Pura politicagem!
Mas, os que participaram, entendiam:
- Esta escola é nossa, nós escolhemos!
Li, sobre a mesma cidade, em que a Administração Municipal colocava o Orçamento Público em computadores e espalhava estas modernas maquininhas em locais públicos, como postos da Cohab, saguão da prefeitura, centros comunitários e outros locais. Todos os dias, o orçamento era atualizado. As pessoas interessadas acompanhavam despesas e receitas sabendo onde o prefeito gastava, quanto gastava e por que gastava.
Ninguém tinha dúvidas sobre o dinheiro público. Ninguém dormia sobressaltado, imaginando que alguém pudesse estar passando a mão em seus impostos.
Tinha quem comentasse:
- Gastam dinheiro à toa com estes computadores. A Câmara já não existe para isso?
Outros, esclarecidos com aquele orçamento aberto, entendiam.
Também me disseram, desta cidade, onde o prefeito reunia secretários e funcionários, passando uma semana por mês em cada região da cidade. Ali, ao lado do povo, solucionavam problemas imediatos, reformavam escolas, postos de saúde, creches, centros comunitários, fiscalizavam a qualidade da alimentação em bares e lanchonetes, promoviam gincanas, torneios, ruas de recreio, palestras sobre alcoolismo, drogas, combate à violência, cursos de capacitação profissional (merendeira, pedreiro, encanador, marceneiro, eletricista, mecânico e outros mais), faziam capina, construção de meio-fio, calçadas, pequenos trechos de asfalto, revitalizavam praças, fundos de vale, quadras esportivas, campos de futebol e, ao final, realizavam grandes debates sobre os problemas estruturais da região, assumindo compromissos.
Havia os que comentavam:
- Só pintam meio-fio.
Ou, entre os dentes:
- Não fazem mais que a obrigação.
Mas, os que eram atendidos, entendiam.
Ouvi dizer desta cidade, que é daqui, do Paraná, onde pela primeira vez ousaram fazer o tal programa Médico de Família. Os médicos, com suas equipes, morando na zona rural, realizavam partos em fazendas distantes, à noite e na chuva. Na região urbana, mantinham internados mais de 100 pacientes em casa (um grande hospital invisível). Soube que, para este grande hospital de mais de uma centena de leitos, gastou-se menos de R$ 100 mil (um hospital construído, não sairia por menos de R$ 5 milhões!). Mas, como esta novidade não era de tijolos e cimento, nem tinha placa de inauguração e foguetório, houve quem comentasse:
- Hospital novo? Só se fizeram em outra cidade!
Porém, os pacientes atendidos sorriam de satisfação.
Soube de muitas outras coisas, que até me dão água na boca. E, entre uma e outra ponta de inveja, penso nesta cidade em que o povo se reúne, participa e decide. Nesta cidade onde o Orçamento é aberto a todos. Nesta cidade onde o prefeito despacha dos bairros e a prefeitura faz as pequenas coisas que o povo carece. Nesta cidade onde as realizações úteis não custam os olhos da cara. E, finalmente, não tenho como deixar de pensar que, para um prefeito ser bom, não basta ser honesto. É preciso descentralizar as decisões, dar transparência aos gastos, fazer obras prioritárias. É necessário admitir que a grande obra não é a obra grande, mas a obra necessária. É preciso repartir o poder, deixar de ser o centro das atenções e ter a coragem de tornar-se vulnerável. Pois, quando um político deixa o povo escolher, e abre mão de uma obras bonitas onde passam muita gente (para que todo mundo veja e admire) ele sabe que suas realizações estarão pulverizadas pelos bairros e poucos saberão delas. E deve admitir que, depois de seu mandato, muitos poderão comentar:
- Não fez nada!
Ou, ouvir dos publicitários de plantão:
- Não falamos? A pata bota ovo maior que a galinha, mas como a galinha vive cacarejando, ninguém sabe que a pata botou...
Mas, para um político mal intencionado, deixar a população decidir é laçar o próprio pescoço. Por isso, muitos centralizam as decisões, botam o povo de escanteio e os amigos para roubar.
Como dizia um amigo meu:
- Se você quer que seu filho tenha a sua cara, você tem que fazê-lo. Se deixar que o vizinho o faça, ele sai com a cara do vizinho.
Se queremos que nossa cidade tenha a nossa cara, nós devemos fazê-la. Se deixarmos que somente alguns a construam, ela nunca será como nós. Assim, com participação, transparência e prioridades claras, imagino, deve ser esta linda cidade da qual ouvi falar. E, mesmo que ela apenas tenha existido um dia, por que não edificá-la, outra vez?
- LUIZ EDUARDO CHEIDA é médico e ex-prefeito de Londrina

mockup