Homus enganador x homus trouxa - Maria Lucia Victor Barbosa
Homus enganador x homus trouxa
Maria Lucia Victor Barbosa
Afirmou o filósofo Hegel que tudo é mente. Ele estava cheio de razão. E deixando de lado as especulações mais transcendentes de tal afirmação para trazê-las ao plano humano, podemos perceber claramente que quanto mais alguém consegue manipular as percepções psíquicas dos outros, maior é seu poder. Deste modo, tal capacidade refulge como sol de meio-dia do verão, principalmente entre pregadores religiosos, políticos, especialistas de marketing, vendedores e golpistas, sem falar nos profissionais da mídia que se dedicam a futricas e escândalos.
Esta facilidade que o ser humano apresenta em enganar e ser enganado, baseia-se em algumas características básicas com as quais a espécie é dotada, a saber: burrice avassaladora, basbaquice melodramática, maldade intrínseca, amor à mentira.
Tudo isto conjugado conduz a uma descoberta antropológica que nem Hegel sabia: o tipo humano mais antigo foi o homus enganador, que fartamente disseminou-se no Planeta logo depois de ter perdido o rabo, ficado de pé e articulado os primeiros grunhidos.
Outro tipo pré-histórico que conviveu na mesma época remota com o acima citado foi o homus trouxa, sendo que a criatura atual, que se considera o centro do universo e o ápice da criação, contém ambas as características destes seus ancestrais com acento maior ou menor de um tipo e do outro, o que explica em parte a insensatez humana. Uma insensatez tão incomensurável que é espantoso o fato do mundo não ter acabado, não por forças da natureza, mas pela destruição causada por seus habitantes superiores.
Tudo é mente, portanto tudo começa na mente do homem para depois se transformar em palavra e ação. E como, também segundo Hegel, o homem precisa de um chefe, palanques eleitorais e manifestações de protesto, por exemplo, transmudam-se facilmente em laboratórios. Neles a arte da persuasão pode ser, a partir de métodos científicos, observada e testada para se chegar a conclusões lógicas sobre como é fácil enganar os homus trouxa, manipulando seus sentimentos e emoções.
Isto ficou claro, recentemente, na Marcha dos 100 Mil (que ficou nos 40 mil ou menos), quando punks, padres, sem-o-que-fazer e toda galera que está a fim de uma viagem grátis foi dar um passeio em Brasília. É provável que a maioria esmagadora daqueles turistas cívico-carnavalescos não soubesse o motivo de sua visita ao centro do poder. Mas deles emergiu uma conhecida voz rouca, cavernosa e gutural, mais semelhante a um rosnado de onça brava. Era a voz rouca do povo? Não. Era a voz do Lula, o qual, instruído por algum marketeiro, arremessou aos ares do planalto central uma enorme pizza.
Provavelmente, o gesto simbólico do eterno candidato petista levou ao delírio a claque que costumeiramente fica em frente ao palanque, o que é normal nestes momentos de lazer e divertimento proporcionados por comícios. Impressionante, porém, é o destaque dado pela mídia ao presidente de honra do PT. Isto só pode ser atribuído às crendices que, originando-se na mentalidade do atraso, acabam por enaltecer alguém que conseguiu a façanha de perder três vezes consecutivas as eleições presidenciais.
Mesmo assim, o triderrotado, que não diz coisa com coisa no sentido de resolver os problemas do País, que se mira no exemplo do caudilho venezuelano Hugo Chávez, que deixou há tempos os momentos de glória do sindicalismo, que como deputado federal teve atuação pífia, é elevado à condição de ídolo, ao status de líder. E basta ele dar um espirro, para que microfones e holofotes se abatam sobre sua avantajada figura.
Lula é o típico arauto da desgraça. Aliás, ele, seus correligionários e demais oposições ditas de esquerda, amam a catástrofe social. Eles aumentam o número de pobres, acentuam índices econômicos negativos, inflacionam a lamúria nacional. Como carpideiras do socialismo, lançam imprecações contra o neoliberalismo, tido como fonte do mal ou Belzebu em pessoa.
Lidando com as mentes, persuadindo com veemência, dizendo o que muitos gostam de ouvir, alteram por ignorância ou má-fé o fato de que as raízes da desgraça latino-americana se prendem aos primórdios coloniais, quando países mercantilistas nos legaram o gosto pelo lucro fácil que inclui a dilapidação da riqueza e não a criação da riqueza, e um Estado que por ser descomunal e em tudo se intrometer se tornou clientelista, incompetente e corrupto. Ninguém menciona que nos faltou, isto sim, um sistema capitalista eficiente, que nas sociedades onde se enraizou conduziu ao progresso e à prosperidade.
A partir dessa mentalidade as distorções são geradas. Assim, meus jovens alunos me transmitem contristados o que ouviram dizer: numa pesquisa efetuada com grande precisão científica, surgiu um dado aterrador: 80% dos entrevistados disseram ganhar nada além de 50 reaizinhos. Ponderei, então, que se numa dada comunidade periférica, 80% das famílias vivessem estritamente com 50 reais, provavelmente não haveria muita gente para entrevistar, pois a maioria já teria morrido de fome. A menos que a pesquisa tivesse sido efetuada nalguma região remota do Nordeste, onde é possível sobreviver com artes de faquir. Mas mesmo por lá já começam a existir obesos com a entrada triunfal da capitalista e global McDonalds, com suas salgadas batatas fritas, cheeseburgers monumentais e irresistíveis tortinhas de maçã.
Ponderar, porém, é esforço inútil quando o gosto pelo quanto pior melhor acaba atraindo as verdadeiras tragédias, entre as quais a inflação é rainha. Mas quem está ligando para uma economia estabilizada, característica maldita deste misterioso neoliberalismo que ninguém sabe o que é? Curtamos a desgraça, a crise, a choradeira geral. Afinal, trazemos em nós a marcada herança do homus enganador e do homus trouxa, pois como se diz, quem herda dos seus não degenera.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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