HOMOSSEXUAIS Maior visibilidade ainda causa estranhamento
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Carolina Avansini <br>Reportagem Local 
Os recentes avanços na conquista de direitos por homossexuais, aliado à maior presença de personagens gays em programas televisivos e até mesmo o aumento de demonstrações de afeto em público entre pessoas do mesmo sexo - principalmente adolescentes -, são fatores que aumentam a visibilidade dos homossexuais no cotidiano da população brasileira.
Apesar disso, o assunto está longe de ser tratado com naturalidade. Para muita gente, a maior atenção dada aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo é um modismo causado pela mídia. A psicóloga Eliane Rose Maio, pós-doutora em educação e professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), discorda desse posicionamento.
''Não é porque a mídia está falando sobre o assunto que se trata de modismo'', afirma ela, que defende que o estranhamento diante da maior presença de homossexuais ''assumidos'' na sociedade é resultado da visão heterossexista que prevalece entre a maioria das pessoas.
Para Eliane, a solução para imprimir mais naturalidade ao tema passa pela necessidade de se implementar, nas escolas, uma educação sexual efetiva que ensine crianças e adolescentes a agirem com tolerância diante da diversidade. ''A pessoa que assume a homossexualidade precisa de acolhimento, e não de rejeição'', diz.
Você acredita que a maior presença de homossexuais na mídia e na rotina das pessoas é um modismo?
Não vejo como modismo. Noventa por cento das pessoas veem como modismo porque têm um olhar heterossexista, ou seja, acreditam que azul é cor de menino, rosa é cor de menina, acham bonitinho quando o menino tem uma namoradinha, sempre dentro de uma visão hétero... Mas há hoje quem descubra possuir um desejo diferente e possa dizer: ''olha, eu gosto de pessoas do mesmo sexo''. Não é opção, não é decisão, não é modismo. É desejo. O modismo vai passar, mas o desejo não passa.
Como abordar a questão para mudar essa visão heterossexista?
É preciso haver educação sexual efetiva. As escolas não têm um projeto de educação sexual e acabam colocando médicos, biólogos, religiosos para dar palestras sobre o assunto, quando o trabalho deveria ser feito por educadores sexuais. No trabalho que faço com professores, percebo que eles não sabem lidar com o tema. Quando o menino, por exemplo, quer usar roupa de princesa e brincar de maquiagem, as professoras ficam assustadas e sempre comentam que a criança ''já tem o jeitinho.'' Nessas ocasiões, eu pergunto para as educadoras heterossexuais: ''quando você começou a gostar de meninos?'' E elas respondem: ''lá pelos 10 ou 11 anos, eu corria atrás dos meninos na escola...''. Então, para os homossexuais é a mesma coisa. Só que no caso deles não pode, a escola não vai permitir que corram atrás de outros meninos. O que eu digo é que, a despeito do desejo, a pessoa que recebe uma educação sexual legal vai saber se comportar, não vai ficar ''passando a mão'' nos colegas, não vai precisar se expor. E, independentemente do desejo sexual, a professora não vai deixar que fiquem ''se pegando'' na sala de aula.
As chamadas brincadeiras de ''troca-troca'' são comuns na infância. Como os adultos devem lidar com elas?
Dos 3 até os 6 ou 7 anos é quando a criança descobre o aparato sexual. Nessa época ela aprende a brincar de motorista, de escolinha, de doninha de casa, de médico. Ela aprende a botar a mão no nariz, na boca e também no pênis, na vulva. Ela começa a se descobrir... E os adultos não devem reprimir, mas explicar que não é higiênico, que é é melhor descobrir sobre a vulva e o pênis no banheiro, no quarto. Tem que chamar os órgãos sexuais pelo nome correto, porque senão a criança já começa a aprender sobre o assunto com um olhar deturpado. As brincadeiras de troca-troca acontecem tanto entre meninos e meninas como entre crianças do mesmo sexo e não são erotizadas, não têm conotação sexual, porque elas são ainda muito pequenas. Quando há exagero, aí tem que investigar, porque pode ser indício de abuso sexual. Depois dos 7 anos, essa fase passa, mas se a criança foi reprimida, apanhou por causa dessas brincadeiras, ela vai guardar e a questão pode gerar consequências psicológicas.
Na adolescência, podem acontecer experiências homossexuais sem que o adolescente seja efetivamente homossexual?
É muito comum. Quem nunca beijou uma amiga? Quem nunca fez troca-troca? É uma época de experimentar, e é normal fazer isso com quem confiamos. Isso não indica que haja um desejo homossexual. O fato de experimentar não significa que eu vá gostar. O essencial é que haja uma boa educação sexual para que essa fase seja superada com tranquilidade, e isso vem da base, da família e da escola.
Demonstrações de afeto entre casais adolescentes homossexuais têm se tornado mais corriqueiras, mas ainda não é uma prática aceita...
Os adolescentes heterossexuais também agem dessa forma e ninguém repara. Independentemente de serem homo ou heterossexuais, são todos adolescentes e vão ficar ''se pegando'' porque estão na idade de ter esse comportamento. É gente que gosta de gente. As pessoas costumam associar os relacionamentos homossexuais à ''transa'', mas não é assim. Os homossexuais brigam, têm discussões de relacionamento como todo mundo... Por isso, no caso de demonstrações de afeto entre adolescentes do mesmo sexo, não há motivo para alarde, desde que não haja exagero. Qualquer adolescente precisa aprender a importância de ter privacidade e, na escola, os professores precisam estabelecer limites para o comportamento dos alunos a despeito do desejo sexual dos estudantes. Mas as pessoas costumam tolerar melhor comportamentos inadequados de casais hétero, do que um simples selinho entre dois homossexuais.
Quando os adultos - pais e professores - se deparam com a situação de ter um adolescente se descobrindo homossexual, como devem agir?
Não dá para castigar, dizer que está errado. A escola não pode abominar...A pessoa que assume a homossexualidade continua igual, vai ter as mesmas tristezas, decepções ... Ela precisa de acolhimento, e não de rejeição. Os adultos, ao descobrirem o desejo dos adolescentes, devem rever os próprios preconceitos. A preocupação deve ser sobre educar uma pessoa de bem, que tenha integridade e honestidade. Com relação à escola, principalmente a pública, ela tem que ser laica. O papel do educador é ser um cientista, ele não pode se influenciar pela religião, na sala de aula, porque não está lá para isso. A postura tem que ser de não aceitar qualquer discriminação.
Recentemente, foi divulgada a informação de que uma escola de Londrina disponibilizou um banheiro para uso de alunos homossexuais. Qual sua opinião sobre isso?
É totalmente desnecessário. Não tem porquê haver essa separação, as pessoas são homossexuais mas não deixam de ser homens ou mulheres. Em casa, todo mundo usa o mesmo banheiro, é só fechar a porta para ter privacidade.


