Homens de responsabilidades
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de junho de 2004
Carlos Alberto João 
Não há responsabilidade, a menos que não haja constrangimento e violência. ''O oprimido é que é o responsável por tudo, pelo que não fez e pelo que os seus opressores fizeram''.
Se dessa situação toda física passa no terreno moral, para a abstração, a responsabilidade é uma caricatura de uma quimera irrisória. Moralmente os indivíduos são tão responsáveis pelas coisas como pela rotação da terra.
Ora, esses ''homens de responsabilidade'' vêm afirmando uma dessas frases que mais friamente penetram na consciência alarmista do País. Dizem eles que o Brasil chegou a uma situação tal que só pode ser governado pelo arbítrio. Só há uma divergência nesse ato: para uns, é o dos que estão com a mão na roda e na massa; para outros deve ser o dos que desejam tomar conta dos freios da máquina de fazer governo, e nesse último, todos nós, não sentimos saudades.
Admitamos a afirmação para dar-lhe um troco na mesma moeda. Estamos nessa situação. Quem nos levou a ela? Não foram precisamente esses ''cavalheiros de responsabilidade'' que, não respondendo por coisa alguma, tomaram-se de gosto pela prepotência.
Admitir que um povo classificado de humilde e sofredor seja ingovernável é uma contradição que só um homem de responsabilidade pode exprimir. O arbítrio é uma intromissão que terá suas causas históricas ignoradas por falta do estudo a que tem horror os responsáveis do sistema.
Será crível que a prepotência seja uma represália como nos insinuam àqueles que querem justificá-lo? Dentro das normas despóticas que prevalecem, o que há é uma profunda incompatibilidade de interesses em choque, interesses de toda ordem em conflito que se agrava.
Com efeito, já se vão abandonando as discussões, passando-se por cima de teorias e entrando-se na franqueza dos fatos, quem pode, pode.
Hoje a responsabilidade, como a honra, o crime, a virtude ou o vício, se apaga como as manchas de gordura nas roupas, com benzina. Às vezes, mesmo sem benzina alguma; deixa-se que uma mácula maior faça desaparecer a menor. ''O homem de responsabilidade'' teme monopólio dos borrões; vão pondo uns sobre os outros e lastrando-os por toda parte.
Muito em vez de apagar essas manchas, o arbítrio prefere comodamente sujar tudo. Depois, é natural, a responsabilidades das imundícies cabe a quem jamais tocou com um dedo nos trajes suntuosos da representação social.
No entanto, é preciso fazer uma lixívia; ela é tão grande, tão vasta que só por medidas radicais, por processos de intensos debates entre os poderes e a sociedade, é que poderemos avançar um pouco, no campo moral, político e social.
CARLOS ALBERTO JOÃO é sociólogo e pós-graduando em História Social pela Universidade Estadual de Londrina
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