Holocausto em Grozny
Nelson Araújo de Oliveira
Sob as cinzas da capital chechena, são sacrificados os últimos heróis da resistência separatista. A luta agora é generalizada e feita no corpo-a-corpo pelas ruas e nos escombros da cidade em ruína. Bombardeiros aéreos e pesadas artilharias arrasaram Grozny na sangrenta guerra da Chechênia, numa luta desigual do poderoso Exército russo e os remanescentes chechenos.
Há de fato um verdadeiro massacre em Grozny, o qual não se limita em abater somente rebeldes, mas também as famílias que ainda resistem nos porões dos escombros. Todos, indistintamente, são cruelmente abatidos pelas bombas assassinas, pelo frio e pela fome. Porque agora estão bloqueadas as vias de abastecimento. Velhos, senhoras e crianças, todos indefesos e sem apoio dos direitos humanos, caem mortos pela desnutrição ou pela epidemia causada pelo odor fétido da carnificina insepulcra que fizeram da capital Grozny, um necrotério a céu aberto.
As ofensivas terrestres das tropas russas ocorrem sempre após intensos bombardeios, destruindo o pouco que ainda resta da capital chechena, em cujas ruínas se acredita haver 40 mil civis que habitam nos porões de uma cidade que agoniza.
Há que se reconhecer a dor de milhares de famílias russas que choram pelos seus filhos mortos nas emboscadas rebeldes. É lamentável que a nação russa sacrifique seus jovens soldados no recrudescimento de uma guerra que poderia ser evitada. Não há valor mensurável que se possa comparar com o ouro, a prata ou extensão territorial, quando o jogo é de vidas humanas. A nação russa não será perdoada pelos seus futuros filhos por esse duplo homicídio.
A história será um espelho do passado, servirá de testemunho e de inspiração para as gerações futuras que, sem dúvida, reprovarão as irresponsabilidades de hoje.
Os malefícios abomináveis e imperdoáveis da guerra naquele país jamais serão esquecidos pelas novas gerações; a inspiração divina ensinará a eles o amor à pátria e o amor ao próximo e a paz para todos; certamente eles reconhecerão que não valeu a pena a destruição; que não valeu a pena a ambição política e que agora não se pode mais reconquistar o que se perdeu, as vidas humanas.
Mas é preciso, segundo afirmam algumas cabeças, sacrificar um povo em honra da nação russa. É necessária a destruição, apesar do contra-senso, quando dizem que isso rende dividendos políticos ao poder central. Foi com essa idéia, que os homens modernos se embruteceram e se revestiram da irracionalidade e de remotas armaduras; quando a força bruta, aliada ao poder, faz sucumbir a lei e a razão. Quando vêem o sangue derramado nos combates insanos, ficam saciados, satisfazendo o egoísmo dos que detêm o poder pela força.
É preciso, afinal, que os filhos da pátria sejam abatidos e suas carnes putrificadas, alimente os abutres e só depois virá a paz. Estamos perto da paz, dizem eles. Logo haverá paz numa nação poluída pela fedentina exalada dos cadáveres de seus filhos mortos em combates e não que não foram sepultados.
Omissas e indiferentes, as organizações mundiais contemplam passivamente um holocausto em Grozny. Salvem as vidas das crianças chechenas. Elas são inocentes como as de Kosovo e de Timor Leste.
- NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

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