A queda do regime de Saddam Husseim trouxe a Bagdá uma onda de depredações e pilhagens. Segundo noticiam os jornais, moradores de Bagdá chegaram a organizar um protesto em que um dos cartazes dizia: ''Nós queremos um novo governo o mais rápido possível para garantir segurança e paz''.
Em Bagdá não há lei, não há polícia para deter as pessoas. Enfim, um cidade sem ordem, sem segurança. Ao que parece, na capital iraquiana não há mais o limite do ''meu'' e do ''teu'' como falam alguns filósofos do direito. Os moradores, com medo, se armam, saqueiam, são espancados e espancam. Nas ruas há barricadas. O cenário é de caos.
O colapso do regime tirânico de Saddam Husseim também foi o colapso da autoridade civil. Não apenas lojas e estabelecimentos públicos, mas também casas de cidadãos e até hospitais estão sendo atacados por gangues improvisadas de saqueadores. O medo e a insegurança se instalaram no vácuo de poder após a destruição da velha ordem.
Thomas Friedman escreveu no ''New York Times'' que ''Saddam foi substituído por Hobbes e não por Bush''. Embora Friedman não tenha esclarecido esta declaração, presumivelmente ele deve ter querido dizer que Bagdá encontra-se atualmente num estado de natureza e que a formulação mais expressiva deste conceito está no filósofo inglês do século XVII.
De fato, a alusão a Hobbes é altamente significativa. A situação atual da cidade de Bagdá mostra a atualidade das reflexões deste autor que, na história do pensamento político, é o grande teórico do estado de natureza e da justificação do Estado.
Para Hobbes, a inexistência do Estado gera um ambiente intolerável de constante medo. É preciso notar que Hobbes estava pensando menos em saber como viviam os homens antes do estado civil do que em entender como eles viveriam sem o estado civil. Ora, a capital iraquiana nos revela justamente a condição a que são conduzidos os homens quando o estado civil perde sua eficácia.
Apenas sob a autoridade política podemos nos colocar ao abrigo da intensa instabilidade do viver que caracteriza o estado de natureza. Assim, a autoridade política se fundamenta mediante a alegação de que um poder comum deve ser reconhecido como necessário para a garantia da paz entre os homens.
Por certo, o preço a ser pago não é pequeno: pagamos a segurança com a nossa liberdade. Mas qual poderia ser o valor de uma liberdade sem qualquer segurança?
Parece-me claro, contudo, que não devemos pagar a segurança hipotecando totalmente nossa liberdade em favor do poder político. Se é verdade que não há liberdade sem segurança, também vale a assertiva de que um estado de completa segurança não valeria a pena sem a liberdade, a qual, além de ser oxigênio vital para os nossos movimentos, é um direito que não podemos renunciar. Locke e Kant também deveriam visitar Bagdá.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina

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