Histórias de crime e castigo
Histórias de
crime e castigo
André Stumpf
Há quase dez anos, Luiz Estevão já tinha rumo na política. Primeiro a Câmara Legislativa. Depois, o Senado. Em 1991, o colunista Zózimo Barroso do Amaral, do Jornal do Brasil, decidiu comemorar seu aniversário em Brasília. A festa foi realizada na residência do Luís Orlando Carneiro, na época diretor da sucursal de Brasília do JB. Foi uma recepção em grande estilo. Muitos convidados e conversas políticas de toda ordem. O ministro Francisco Rezek, então nas Relações Exteriores, pontificou. Conhecia a fundo a questão do Iraque, que havia invadido o Kuwait, e estava por fazer a guerra contra a aliança ocidental.
Um jovem empresário passou pela festa. Era Luiz Estevão de Oliveira Neto. Não se demorou muito. Conversou com algumas pessoas, entre elas o colunista Carlos Castello Branco, que estava a meu lado. Fizemos uma conversa a três. O empresário, que tinha enorme prestígio com o na época poderoso presidente Fernando Collor, traçou seu rumo na vida, em poucos minutos. Vou ser deputado distrital, porque preciso aprender a fazer política. Depois, vou me candidatar ao Senado. Ao que parece, de política não aprendeu.
Luiz Estevão foi aluno do Centro Integrado de Ensino Médio (CIEM), espécie de escola de aplicação da Universidade de Brasília (UnB). Um centro que formou gente muito qualificada. Acabou cedo porque os militares entenderam que por ali transitavam idéias esquerdistas. É desta época que uma turma de alunos fez uma badalada viagem aos Estados Unidos. A foto já foi publicada no jornal Correio Braziliense. Na mesma imagem estão Fernando e Pedro Collor, além de Luiz Estevão. Todos com cara de garotos travessos.
Até a década de 80, Luiz Estevão se mostrou empresário arrojado e agressivo. Ganhou muito dinheiro e investiu na construção civil em onze Estados no País. Mas a eleição de Fernando Collor mudou o destino do empresário. A fascinação pela política o tocou. Naquele momento, as oligarquias estavam absolutamente deslumbradas pelo jovem presidente brasileiro, que falava vários idiomas e prometia mudar o Brasil. O modelo, para quem for examinar de perto o senador e o ex-presidente, é o mesmo.
Os dois foram criados em Brasília. Conviveram com o poder desde meninos. E viveram uma vida sem preocupações financeiras. Garotos ricos. Luiz Estevão, na Câmara Distrital, consolidou fama de truculento, agressivo e brigão. Os descaminhos trilhados por Fernando Collor aparentemente não foram percebidos pelo amigo. Há mais de ano algumas pessoas garantiam existir o contrato de gaveta pelo qual a empresa OK simplesmente comprara a Incal, que construiu o prédio superfaturado do Fórum Trabalhista de São Paulo. Não havia como publicar a reportagem por falta de prova. Agora, a prova apareceu.
O plano político completo incluía a candidatura de Luiz Estevão ao governo do Distrito Federal. Deveria ocorrer em 2002. O governador Roriz, que fez sua campanha junto com o senador, teria dificuldades de anunciar sua pretensão de concorrer à reeleição. Agora, já se insinua nesta direção. O principal adversário está deixando a cena política. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Reginaldo Oscar de Castro, que é da geração dos anos 60 na UnB, tem dado sucessivas entrevistas apostando na responsabilidade de Estevão nos crimes de que é acusado. O presidente da Ordem sabe o que diz.
A geração de 60 tem natural orgulho de ter participado da consolidação de Brasília. É gente que sentia muito frio para estudar na UnB as aulas começavam às 7 horas da manhã e havia chamada numa Asa Norte absolutamente deserta. Collor e Estevão representam uma outra Brasília, a dos endinheirados e deslumbrados com novos caminhos que, subitamente, abriram-se diante deles.
Nesta história de crime e castigo, ascensão e queda, euforia e depressão, Luiz Estevão entra para a história de Brasília como um personagem que desmoronou antes de atingir o ápice. E na do Senado, possivelmente, como o primeiro senador a ser cassado por seus colegas em mais de 170 anos de vida daquela instituição.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília
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