Histórias cabeludas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de abril de 1997
Fernando José Dias da Silva 
As moças de Buenos Aires resistem e se agarram aos últimos vestígios de calor para usar saias curtas e roupas leves (o que é ótimo), embora as vitrines das lojas já estejam cheias de paletós, calças e blusas pesadas, de lã, para enfrentar o frio, que pelo visto será bravo, este ano.
Mas em Buenos Aires também não há tanta gente otimista e alegre como suas moças. Principalmente o governo, que pode estar cercado numa manobra para impedir que o presidente Carlos Menem seja candidato pela terceira vez. O presidente dá todas as indicações de que quer cumprir um terceiro mandato.
E ele, sim, dá lições de otimismo. Além disso se compara a Deus, como um outro colega de país vizinho. Num comício em Bahia Blanca, Menem cravou a seguinte frase diante dos presidentes: Argentina, levanta-te e anda. É ele que vai fazer o milagre de curar a pátria doente.
Nós brasileiros temos a mania de achar que tudo que é nosso não vai dar certo, que tudo é esculhambado. Uma tristeza. A corrupção, o desvio do dinheiro público, os negócios por baixo do pano, então, são práticas exclusivamente nacionais.
Mas não é bem assim. Basta ver a Argentina e nós vamos perceber que as coisas estão mais ou menos iguais, ou então arrumamos seguidores com uma rapidez incrível. Nada a ver com história. São coisas recentes. Na Argentina também existe um caso policial de arrepiar os cabelos. A morte do jornalista José Luis Cabezas. Assassinado por ter chegado perto demais de um grupo comandado por policiais de alto escalão, que detinham o monopólio do tráfico de drogas e de assaltos em casas chiques do litoral argentino.
Cabezas era fotógrafo da revista Notícias. Seu companheiro, o repórter Gabriel Michi, escapou por pouco. Não foi detonado porque saiu antes da festa de um milionário, em Pinamar, cidade litorânea onde os ricos passam as férias de verão.
O executor da queima de arquivo já foi apontado. É Gustavo Prellezo, que até o escândalo estourar era oficial inspetor da Polícia da Província de Buenos Aires. Prellezo pode ser o autor do crime, mas ninguém sabe ainda quem é o mandante. O que se sabe é que José Luis Cabezas incomodou muita gente próxima a Menem. Foi ele o primeiro a fotografar o misterioso e poderoso empresário Alfredo Henrique Nallib Yabrán.
É aí que as coisas ficam difíceis para Menem. Yabrán é acusado de manobras escusas na área em que atua - os correios e aeroportos, além de empresas de vigilância, onde até trabalhariam alguns acusados de envolvimento no caso Cabezas. Yabrán deu depoimento de sete horas no Congresso, mas não convenceu os parlamentares, que resolveram abrir uma Comissão Antimáfia que vai investigar o empresário.
O governo Menem está preocupado com essa espécie de CPI argentina. A comissão antimáfia é vista como uma comissão anti-Menem e que seguramente também irá tratar de uma estranha transação entre a IBM e o Banco de La Nacion, onde, parece, muita gente saiu rica e com contas fantasmas no Uruguai.
No meio de tudo está a briga dentro do Partido Justicialista, entre Menem e o governador da Província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que era o escolhido para suceder Menem, mas agora parece que já não é mais. Os dois trocam desaforos. E a tropa de Duhalde no Congresso tenta puxar o tapete de Menem.
São escândalos financeiros ocorridos no Banco de La Nacion, na alfândega, nos correios. São evidência de corrupção e atividade criminosa dentro da polícia. São acusações de manipulação de juízes como nos casos das investigações sobre os dois atentados à colônia judia de Buenos Aires. São todas histórias cabeludas.
É tudo muito parecido com o que acontece aqui.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo.


