André Stumpf
A história das navegações e das descobertas é fascinante em seus mistérios, segredos, insinuações e traições. Ninguém conhece bem os personagens. Nenhum autor possui absoluta certeza do que afirma. Na verdade, o segredo era a obrigação primeira e compromisso principal de quem se envolvia no negócio. E eram operações de Estado. Seus gerentes se reportavam diretamente aos reis ou a seus prepostos.
Há um primeiro e talvez principal enigma: quem era Cristóvão Colombo? Para a história oficial, fartamente difundida no Brasil, era um genovês, filho de artesão. Chegou a Lisboa por acidente. O navio em que viajava afundou nas costas de Portugal. A história já começa torta. Na Europa medieval, quando não havia perspectiva de mobilidade social, um filho de artesão dificilmente teria acesso aos reis. Pior: Colombo não falava italiano nem seus dialetos. Mas conhecia latim e grego, idiomas em que travou conhecimento com os escritos de Ptolomeu.
O escritor português Mascarenhas Barreto, em seu ‘‘Cristóvão Colombo, Agente Secreto do Rei Dom João II’’, sustenta que o descobridor nasceu na Ilha da Madeira. Coincidência ou não, Colombo casou-se com Felipa de Perestrello, filha do governador-geral daquela possessão lusitana. E, para completar a confusão, o verdadeiro nome do almirante do mar-oceano seria Salvador Fernandes Zarco. João Gonçalves Zarco, avô de Salvador, foi o descobridor da ilha em 1419.
Mais intrigante, ainda, é a descoberta, em 1438, da Ilha de São Mateus. Os portugueses procuravam as melhores rotas para seus navios retornarem a Lisboa de volta da África. Estabeleceram no Benin a Fortaleza de São Jorge da Mina. Dali partiram expedições em direção a oeste em busca de portos, correntes e ventos favoráveis ao retorno. Foi aí que encontravam essa ilhota. De início ganhou o nome de São Mateus, depois virou São João e, após 1504, foi batizada como de Fernando de Noronha, hoje disputada localidade turística brasileira.
Quando, em 1498, os navios de Vasco da Gama passaram pelas ilhas de São Pedro e São Paulo (29º 22’ longitude 0; 0º 56’N), a cerca de 1.300 quilômetros da costa brasileira, houve uma festa a bordo. Motivo: estavam em frente das terras portuguesas. Faz sentido deduzir que Cabral foi mandado descobrir oficialmente o Brasil, seis anos depois da assinatura do Tratado de Tordesilhas.
A história do descobrimento é fascinante por essa razão. Quanto mais se estuda, mais se precisa estudar. E mais confuso fica o enredo. A dominação filipina sobre Portugal destruiu arquivos sobre o assunto. E a Inquisição se encarregou de esconder ou acabar com qualquer indício de conhecimento que interferisse na ordem vigente então. Restou o quebra-cabeça histórico que construiu este País prestes a comemorar 500 anos de existência.

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