São Paulo sedia na próxima quinta-feira o 1º Congresso de Ex-Presos e Perseguidos Políticos, que vai homenagear resistentes, mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. A FOLHA ouviu Raphael Martinelli, líder sindical perseguido nos anos 60 e coordenador do evento. Ele cobra do governo a abertura dos arquivos da ditadura militar, culpa a censura pela falta de jovens lideranças políticas e coloca a atitude de alguns policiais como herança daquela época. ''Eles pensam que são a Lei, podem bater, prender, jogar uma menina na cela com mais de 30 presos para ser estuprada''.

Quais as principais marcas deixadas pela ditadura militar?
Temos poucos jovens políticos como liderança, porque não se permitia congressos, reuniões e assembléias naquela época. Era tudo censurado. Quando não há debate, troca de idéias, a democracia não se desenvolve. Pior, impede a formação de bons líderes políticos. Tanto que nas primeiras eleições diretas subiram ao poder os antigos dirigentes, não houve uma reformulação.

E os anistiados, foram devidamente indenizados pelo governo?
Foi criada uma imagem de que os anistiados recebem fortunas de indenização. Isso não é verdade. Segundo a Lei da Anistia, o responsável é o governo. Se não demorasse tanto para o processo ser aprovado, não haveria a compensação dos atrasados. O próprio governo enrolou sete, dez anos para julgar.

O direito dos perseguidos não está sendo reconhecido?
Está, mas com algumas falhas. Parece que havia uma orientação da área econômica para dar preferência ao pagamento chamado único, em que o valor máximo é de R$ 100 mil. Eles estão pagando R$ 20 mil, R$ 30 mil, e não estão levando em consideração o tempo de perseguição política sofrida. Meu irmão foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos em São Paulo, sofreu várias perseguições, e foi indenizado com 30 salários mínimos, como se fosse só um ano de anistia. Na época da ditadura, as indústrias tinham listas do próprio governo com os nomes dos agitadores, comunistas, e não os aceitavam na empresa. Isso precisa ser levado em conta na indenização.

E os arquivos da ditadura, por que o governo não libera o acesso?Isso tem que vir a público o mais rápido possível. A história do Brasil não pode ficar escondida. Nós sabemos que ainda existe pressão do restante da ditadura que está no governo. Se você analisar politicamente, a Lei da Anistia não foi elaborada durante o regime democrático, mas no governo Figueiredo, em 1979. Tanto que a anistia dá perdão ao torturador e aos perseguidos. Eu nunca vi isso. Os homens que torturaram e mataram são premiados com a anistia. A abertura dos arquivos vai ser muito útil para a juventude, vai mostrar para ela que a verdadeira história não é aquilo que falam. Não tinha nada de plano de ditadura comunista. Foi tudo uma maquiagem dos grupos internacionais para conter o avanço dos direitos dos trabalhadores. Só para citar um exemplo: o Dops foi reformado, não tem um resto de história naquele lugar. Sumiram as paredes escritas com sangue, mostrando o sofrimento de quem esteve por lá. O estudante vê o local hoje e pensa que era um apartamento de luxo.

O País ainda carrega algum resquício da ditadura?
Um certo autoritarismo das polícias militares, por exemplo. Eles pensam que são a Lei, que mandam, podem bater, prender, jogar uma menina na cela com mais de 30 presos para ser estuprada. Tortura nas delegacias é uma coisa normal e isso tem que acabar. Se a democracia prega justiça, ela tem que ser cumprida. Não há necessidade de pendurar no pau-de-arara, bater até matar, entrar na favela dando tiro para tudo que é lado. É por isso que a democracia avançou, mas ainda não chegou ao ponto ideal.

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