Seria hilária, não fosse trágica a vasta argumentação de estudantes, provavelmente brancos, acerca da política de cotas que a Universidade Estadual de Londrina pretende implantar já para o próximo vestibular da instituição. Invocar o direito de igualdade em meio a essa discussão cheira à hipocrisia.
Anunciar que o ingresso na universidade é marca do esforço pessoal e mérito da própria capacidade, é ignorar as muitas variantes decisivas deste processo, como oportunidade, o sucateamento do ensino público e a voracidade lucrativa das instituições privadas de ensino fundamental e médio. Ninguém faz sucesso ou fracassa sozinho.
Há quem argumente que as cotas deveriam ser para pobres porque brancos e negros pobres não passariam no vestibular. Verdade. No entanto é mais difícil ainda para o negro pobre passar no concurso. Basta ver os números de negros nas universidades públicas e particulares.
Está claro que a política de cotas não é o ideal para universalizar e democratizar o acesso à universidade, mas é uma forma necessária para promover a igualdade, que agora brancos invocam para não perder a vaga que pensam ter.
Aos governantes cabe a decisão de promover políticas públicas que minimizem as diferenças e desigualdades sociais. Ponto para a reitora da UEL, Lygia Pupatto. Mesmo compensatória, a cota funciona como mecanismo de promoção do direito à oportunidade. Isso sem falar na dívida social que brancos têm, no Brasil, com negros, índios...
Esta polêmica também pode ser visualizada a partir do exemplo do Sistema Único de Saúde. Supondo, em Londrina, a realidade dos conjuntos Maracanã e João Turquino, região oeste, e a do jardim Quebec, área central, em qual localidade o prefeito deveria construir um posto de saúde?
O bom-senso responderia no Turquino e Maracanã cuja população tem menos acesso aos serviços de saúde, não tem plano ou convênio e tem menos dinheiro. O raciocínio é o mesmo na política de cotas em que o governante deve para promover justiça social dar mais para quem tem menos.
REINALDO ZANARDI é jornalista e professor universitário em Londrina

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