Hipocrisia embala privatização do Banestado
O governo do Estado fixou em 17 de outubro a data para a venda do Banestado, e a cada dia a sociedade paranaense vai ficando cada vez mais estupefata, na medida que se apropria de informações sobre o banco e o processo de privatização. Informações diferentes das oficiais estão chegando a conta-gotas por outras vias, pois o governo jamais se preocupou em debater tão importante decisão com a população paranaense. Aliás, o governo Lerner não se elegeu com a bandeira da privatização. Infere-se que, caso tivesse pregado em sua campanha a entrega da Copel, da Sanepar e do Banestado e outras surpresas desagradáveis, como o pedágio, sequer teria sido eleito.
As posições divergentes têm encontrado a mídia bloqueada ou tratando o assunto pela ótica do governo. Os sindicatos, em conjunto com outras entidades representativas dos funcionários do Banestado vêm, com angustiante esforço, expondo as contradições e inverdades lançadas como justificativa. Utilizou-se durante algum tempo, e que ainda produz efeito em algumas cabeças, o argumento de que havia corrupção no banco e era preciso moralizar. Cínicos, pois a Copel, em seus sólidos anos de bons serviços prestados não registra um único caso de corrupção e, no entanto, está em franco processo de privatização. E se o governo não consegue administrar uma empresa com ética, para moralizar é preciso trocar o governo e não vender a empresa.
Quem ainda acredita que os famigerados mais de R$ 5 bilhões foram utilizados unicamente para sanear o Banestado, precisa dar uma pesquisada nas rubricas destinatárias dos valores. O ideal seria uma auditoria para rastear tão volumosa soma após sua liberação pelo Banco Central. O governo alegava que o banco se encontrava em situação calamitosa. Se quisesse moralizar deveria ter proposto a liquidação e não implicado o Estado numa dívida que se arrastará por 30 anos, apenas para repassar o banco em ótimas condições e com incentivos mais do que condenáveis.
Atualmente, confortavelmente respaldado pela maioria dos deputados estaduais, o governo se dá ao luxo de nem explicar mais seus atos. Apenas usa sofismas do tipo não tem mais jeito, foi o Banco Central que determinou, ou que privatizar é modernizar. Besteira. O Banestado apresenta número médio de funcionários por ponto de atendimento abaixo da iniciativa privada, seus quadros estão preparados e concorrem em pé de igualdade no mercado e, no primeiro balancete semestral após o saneamento, o banco gerou lucro de mais de R$ 150 milhões, reduzido a cerca de R$ 20 milhões por conta de provisões em face da privatização.
A não ser que modernizar seja o que fizeram com a telefonia, quando os compradores receberam financiamentos subsidiados, têm garantido o reajuste das tarifas acima dos outros indicadores da economia, não cumprem as metas de investimentos e melhorias, e ninguém mais precisa fazer ligações telefônicas, pois o lucro das empresas está garantido pela salgada assinatura básica, que saltou de alguns centavos para R$ 20 na telefonia fixa e mais de R$ 30 nos celulares.
Os atrativos aos interessados em arrematar o Banestado que não necessitam, pois se trata de grandes bancos detentores de gordos lucros são tão inexplicáveis e parciais que a Assembléia, com honrosas e poucas exceções entre os deputados, em poucos minutos aprovou, entre outros incentivos, a manutenção das contas do governo por cinco anos na posse do novo controlador e rejeitou todas as emendas que previam algum benefício ao quadro funcional e à população.
À lista de mimos soma-se a subavaliação de R$ 434 milhões, que nenhum paranaense engoliu; o acesso a créditos tributários da ordem de R$ 1,5 bilhão; as benesses do programa de desestatização federal, que concede financiamento pelo BNDES para a aquisição com juros e prazos de pai para filho, possibilidade de descarte de créditos que futuramente vierem a ser considerados duvidosos, e verbas destinadas à implantação de planos de demissão dos funcionários restantes. Não podemos esquecer dos mais de R$ 400 milhões em ações da Copel caucionados, que passarão para a mão do feliz comprador numa mágica marota.
Mesmo quem eventualmente seja favorável à privatização tem motivos para questionar o método do governo. E nós, que somos frontalmente contrários à privatização, acrescentamos aos nossos argumentos os aproximadamente 150 municípios que ficarão sem nenhum atendimento bancário, onde as prefeituras movimentarão suas arrecadações em outra praça, com os transtornos decorrentes e gerando renda para outra cidade; os pequenos acionistas, que apostaram no fortalecimento do banco e cujos papéis viraram pó; as promessas deslavadas do governo de continuidade no atendimento, sabedor de que nada pode garantir, uma vez que após a privatização quem manda é o novo banco, e nem as grandes cidades estão livres de perder suas agências.
Propositadamente deixamos a questão do emprego para o final. Não nos envolvemos na luta em defesa do Banestado apenas para defender nossos empregos, que são extremamente importantes, haja vista que são por volta de 10 mil famílias cujo sustento é provido por seu vínculo ao banco e empresas coligadas, agravado pela conjuntura de recessão e desemprego.
Estamos exigindo é a moralização e resgate de uma empresa pública capaz de prestar serviços públicos de qualidade se bem administrada. Estamos, ainda, combatendo a hipocrisia dos governos, que não escolhem a melhor, mas a mais conveniente opção. Mandam e desmandam na coisa pública e, a guisa de queima de arquivo, brandem a espada da privatização, que entre tantos sangra também os empregos e não pune ninguém. Vende-se a empresa e a sangria continua através de outras injunções.
- JOSÉ FRANCISCO DA SILVA é presidente do Sindicato dos Bancários de Londrina e funcionário do Banestado





