Hipocrisia e desperdício - Mirian Guaraciaba
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de abril de 1999
Mirian Guaraciaba 
Só a impunidade histórica e aparentemente intransponível pode explicar tantos abusos neste país. Benefícios ilegais e imorais - como o auxílio-moradia dos deputados distritais - obras que permanecem inacabadas, consumindo o dinheiro e a fé do povo, comissões que não servem para nada, políticos que mandam matar. Se vivêssemos num país sério, os crimes não se repetiriam com tanta frequência e desfaçatez. Não desconhecemos que existem corrupção e desmandos no Primeiro Mundo. Mas lá, geralmente, os criminosos são punidos. Essa é a diferença.
Três ações populares foram impetradas contra o descarado decreto dos deputados distritais de Brasília. A Justiça concedeu liminares e mandou que os deputados devolvessem o dinheiro já depositado em suas contas. Quem nos garante que vão devolver o que suamos todos os meses para ganhar? Sobre nossos salários e rendimentos, ou faturamentos das empresas, pagamos impostos que sustentam a máquina oficial e enchem os cofres do Estado.
Se os governos - em todos os níveis - nos proporcionam asfalto (de qualidade duvidosa, na maioria das vezes), escolas (insuficientes e malcuidadas), assistência médica (ineficiente), também dão destino pouco nobre ao dinheiro arrecadado mediante impostos. Caso cristalino dos deputados distritais. Políticos têm esta facilidade. Aprovam leis em benefício de seus próprios bolsos. Ou empunham bandeiras que nada têm a ver com os destinos da população. Não estão preocupados com o bem-estar do povo, mas com o próprio presente - e futuro.
Os políticos nos enganam com discursos inflamados e agressivos. Costumam dizer uma coisa quando querem dizer outra. Acabam fazendo algo bem diferente. O alvo é um, a pontaria outra. Casos exemplares das CPIs do Poder Judiciário e do Sistema Financeiro. Havia um plano que transformaria as CPIs em pizza antes de serem instaladas. Não deu certo. Como não tem dado certo tanta coisa projetada e prometida por nossos políticos e governantes ao longo de décadas.
Querem exemplos? Adormece no Senado um relatório que aponta nada menos que 2.214 obras inacabadas em todo o País. A comissão especial de senadores identificou as obras, contabilizou o tamanho do prejuízo - R$ 10,2 bilhões foram gastos - e nada mais foi feito.
O senador Carlos Wilson, que presidiu os trabalhos de investigação, espera que uma nova comissão seja instalada nos próximos dias. Os senadores terão que fazer quase tudo de novo para checar informações constantes num farto relatório produzido à época.
A Comissão de Fiscalização e Controle do Senado deve dar continuidade ao processo, acredita o tucano Carlos Wilson. Será uma forma de dar satisfação à sociedade. Afinal, quando providências do Legislativo - como do Executivo ou do Judiciário - ficam pelo meio quem perde é o contribuinte.
É tanta e tão absoluta a impunidade no Brasil que data do Império a obra mais antiga do País. A Ferrovia Transnordestina ligaria Salgueiro a Petrolina, em Pernambuco, e Salgueiro a Missão Velha, no Ceará. Faltam 212 quilômetros e R$ 262 milhões. As obras estão paralisadas desde 1992. O relatório do Senado está pronto - e arquivado - desde 1995.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília


