''Quando eu era criança brincava na rua, jogava bola, corria. Isso não existe mais. A criança fica presa num apartamento e joga videogame 14 horas por dia. Ela tem muita energia para gastar, o que é completamente normal. É importante não misturar o que é agitação, animação, com um problema de saúde (Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade) que de fato está aí, existe. Mas não pode misturar.''
O alerta é do psicólogo Jan Luiz Leonardi, mestre em análise comportamental pela PUC-SP, que faz parte do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento, centro de pesquisa criado em 2005 formado por membros da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC).
Conforme Leonardi, temos hoje um excesso de diagnósticos de TDAH. ''Não é porque seu filho é agitado e um pouco desatento que ele é hiperativo. Esse problema deve ter avaliação realmente precisa'', aponta.
''A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tem um dado que mostra que de 2000 a 2005 o consumo de metilfenidato (medicamento usado no tratamento da doença) cresceu 1.000%. Estatisticamente é muito improvável que tenha ocorrido um crescimento de TDAH da ordem de 1000% em cinco anos. Então, o que justifica isso? Parte dele, a menor, é gente que usa para prestar vestibular, estudar. O resto é diagnóstico. Tem uma parte que pode ser certo, mas tem um tanto que deve estar errado'', declara Leonardi.
O que causa o Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade?
Quando se fala em causa desse transtorno a literatura científica está um tanto quanto dividida. Existem dados que mostram que existe papel da genética. Ao mesmo tempo é muito evidente a contribuição de aspectos do ambiente, a criação, o jeito que a criança interage na escola, com a família. A causa específica propriamente dita ainda é incerta.
Não há uma causa definida, mas há medidas preventivas para TDAH?
Do ponto de vista genético não tem nada para isso. Mas a gente tem que tomar muito cuidado. Não é porque tem uma base genética que ela se torna imodificável. Você não modifica o gene, por exemplo, se você tem uma criança com Síndrome de Down. Isso está comprovado que é 100% genético. Agora ela pode aprender um conjunto de comportamentos para melhor se adaptar ao mundo. Tudo bem, você não vai mexer no gene, mas ela vai mudar.
O que a gente sabe muito bem é que o papel do comportamento é muito grande para determinar as chances de acontecer no futuro ou não. Por exemplo, a criança está agitada na sala de aula, a professora se cansa e manda ela para fora. Que consequência ela teve? Se livrou da tarefa. Se se livrar da tarefa for para aquela criança uma coisa importante, a chance desse comportamento aumentar de frequência é grande. A criança aprendeu uma forma de se livrar de uma coisa que para ela é incômoda. E esse processo de aprendizagem não é uma coisa consciente.
Como é feito diagnóstico do TDAH?
O diagnóstico também é uma questão controversa. A gente tem que tomar muito cuidado, quando essas coisas aparecem na mídia, como nessa própria entrevista. As pessoas ouvem (sobre) criança hiperativa e têm um filho agitado e já acham que é hiperativo. E, na verdade, o que acontece é que as mães, os pais, os professores têm dificuldade de lidar com uma criança agitada, que é uma agitação (normal) de ser criança. Então tem que tomar muito cuidado, corre muito risco de patalogizar uma criança que é normal.
Está acontecendo um excesso de diagnóstico de crianças com TDAH?
Eu acho. Porque o que acontece: a mãe vai leva a criança no médico, ela já está com muita vontade que o médico faça alguma coisa. Aí o médico pergunta: com que frequência seu filho interrompe uma conversa? E o que ela vai acabar dizendo? ''Nossa, sempre''. Uma coisa que ocorre cinco vezes por semana, aí ela vai acabar falando que ocorrem 15 vezes.
O diagnóstico é basicamente clínico, por meio de entrevista, questionário. E às vezes pedem avaliação de neuropsicólogo, que faz uma bateria de testes de controle de impulso, de atenção. São testes indicativos, mas não dá para bater o martelo.
A culpa de excesso de diagnóstico é só da família?
Acontece às vezes de ter uma avaliação médica muito breve. Não sei como é convênio aqui em Londrina, mas em São Paulo convênio sucateou a sa© úde. Vai no médico, te atendem em dez minutos, não dá tempo de fazer uma análise ampla, complexa, como a coisa exige.
E a gente tem um fenômeno também complicado que é, por exemplo, se a criança recebe um diagnóstico desse. A escola tem uma criança com a qual não está sabendo lidar. Ela está muito agitada, indo mal. Eles pegam essa criança, chamam o psicólogo da escola e aí o que acontece? Vamos supor que essa criança receba de fato o diagnóstico de TDAH. Uma coisa que a gente observa é o seguinte: o professor passa a exigir menos do aluno. Ele pensa, esse aí é hiperativo, doente, então é melhor deixar quieto. E isso é um problemão. Passar a tratar diferente.
Todo paciente diagnosticado com TDAH precisa de medicação? Está ocorrendo um excesso de tratamentos com medicamentos atualmente?
Está ocorrendo excesso de medicação, sim. Nem todos os casos precisam de medicação. Tem alguns casos que precisam de medicação no começo. Você quer fazer uma intervenção comportamental, mas às vezes a criança é tão agitada que você não consegue começar. A criança é medicada, em geral com metilfenidato, cujo nome comercial é Ritalina. Então a criança medicada diminui um pouco a agitação, aí você começa a trabalhar. Essa criança pode ser que nunca mais precise do remédio ou pode ser que precise para sempre. Vai ser caso a caso.
O TDAH tem cura?
Tenho dificuldade para falar em cura, pois nem acredito que seja uma doença. Se a gente for preciso, a medicina considera doença aquilo que você sabe a causa específica. Quando não se sabe especificar a causa, isso se chama síndrome. Você tem lá a criança hiperativa, desatenta, impulsiva. Você sabe identificar a causa? Não. Então tecnicamente não pode chamar de doença.
Agora, você falou em cura. Se você faz a avaliação se precisa ou não de medicamento, medica direito, acerta a dose - claro que não é na primeira - e faz uma boa intervenção comportamental, a pessoa vai ter uma vida normal.
Quais são os efeitos do excesso de medicação em crianças de 6, 7 anos?
Tem dado que mostra que é um problema, tem dado que mostra que não é. O que a gente sabe é que tem efeitos colaterais, um pouco de enjoo, dor de cabeça. Mas estudos sugerem que atrapalha no crescimento. De qualquer forma, se de fato existe um desbalanço químico naquela criança que justifique a medicação, a medicação é muito mais benéfica do que prejudicial. Vai ser prejudicial a partir do momento em que a criança não precisa. É por isso que é importante fazer uma avaliação bem precisa.
Quanto tempo leva para fazer uma avaliação precisa dessas?
Essa avaliação é contínua. O médico vai medicar a primeira vez, que é determinada pelo peso. Ele vai avaliar quanto mudou, por que mudou, o que aconteceu com aquela criança. Isso faz parte do processo normal. À medida que ele vai acertando a medicação, que vai tendo uma intervenção comportamental, vai poder ter uma redução da medicação. Isso vai sendo avaliado pelo psicólogo, pelo psquiatra e pelo pediatra em conjunto. Aí é caso a caso.
Qual é a orientação para os pais cujos filhos são diagnosticados com TDAH?
Quando se fala em diagnóstico de TDAH, você vai ter um conjunto de sintomas: agitação, desatenção, é aquela criança que se mexe demais, pula nas coisas, atropela e tal. Essas coisas só vão compor um quadro de TDAH se trouxer prejuízo em pelo menos dois contextos diferentes. Por exemplo: na casa e na escola, ou na casa e com os amigos. Então tem que acontecer em mais de um lugar e ter comprometimento. Se uma criança é agitada pra caramba, sempre está a mil, mas consegue fazer tudo, funciona, não tem prejuízo, essa pessoa não deve receber esse diagnóstico. Se receber, está errado. É fundamental que tenha algum comprometimento.
A parte de orientação de pais e professores é fundamental no tratamento. Porque família e escola são 80% do ambiente em que essa criança vive. Então as mudanças que esses pais vão ter que fazer no jeito que interagem com a criança, e com os professores também, vão ser cruciais para a mudança do comportamento para melhor. Essa análise para o profissional é uma coisa razoavelmente simples de fazer, mas para o leigo é dificil enxergar essas relações. Por isso, é fundamental ter acompanhamento psicológico.
Algum estudo aponta a porcentagem de diagnósticos errados feitos no País?
Não há um estudo. E eu não chutaria um número, mas posso te falar o seguinte: a Anvisa tem um dado aponta que de 2000 a 2005 o consumo de metilfenidato cresceu 1.000%. Estatisticamente é muito improvável que tenha ocorrido um crescimento de 1.000% nos casos de TDAH em cinco anos. Então o que justifica? Parte dele, a menor, é de gente que usa para prestar vestibular, estudar. O resto é diagnóstico, tem um tanto que pode ser certo, mas tem um tanto que deve estar errado.
Agora, se você olhar a literatura internacional vai achar um monte de gente falando que se diagnostica mais do que devia e um monte de gente falando que se diagnostica menos do que devia. A minha opinião é que hoje se diagnostica muito mais criança com TDAH do que deveria.

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